
17/03/2026
Em uma semana chuvosa, cientistas de vários países —ligeiramente decepcionados com a recepção cinzenta da capital fluminense— discutem como fazer para que o Tratado do Alto-Mar, que entrou em vigor em janeiro, seja bem-sucedido na sua missão de proteger a biodiversidade oceânica do planeta.
A ciência, defendem os pesquisadores, deverá ser central nesse processo. "Mas isso requer ter mais capacidades científicas em outros lugares, não apenas nos países ricos", diz Julian Barbière, que chefia o setor de política marinha e coordenação regional da COI (Comissão Oceanográfica Intergovernamental) da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).
"Globalmente, a ciência oceânica recebe pouco investimento e a maior parte das capacidades está no Norte Global. Há um desafio em garantir que todos os países possam participar desse processo", conta em entrevista à Folha no Museu do Amanhã, onde ocorre o simpósio sobre o acordo internacional, conhecido pela sigla em inglês BBNJ (Acordo de Biodiversidade Marinha Além da Jurisdição Nacional).
Ele explica que vem tentando mobilizar recursos para melhorar a infraestrutura científica de nações em desenvolvimento —mas que esse é um momento particularmente difícil para isso.
"No sistema de observação oceânica, cerca de 50% dos ativos —ou seja, equipamentos como robôs que vão às profundezas do oceano para coletar dados— são operados pelos Estados Unidos", afirma. "Nunca é uma boa estratégia colocar todos os ovos na mesma cesta".
Barbière também ocupa o posto de coordenador da Década do Oceano da ONU, que vai de 2021 a 2030. Um balanço da iniciativa, que busca reverter o declínio da saúde dos oceanos por meio da ciência, ocorrerá em uma conferência também realizada no Rio de Janeiro, no próximo ano.
"A questão é como construirmos não apenas uma conferência, mas um momento mais amplo para refletir sobre a importância do oceano para a comunidade internacional e para o Brasil também".
🎤 Como o Tratado do Alto-Mar pode ajudar a alcançar a meta de proteger 30% do oceano até 2030?
A meta estabelecida pela Convenção sobre Diversidade Biológica se refere principalmente à proteção do mar dentro da jurisdição nacional. O BBNJ, embora não estabeleça uma meta em termos de quanto precisa ser conservado, oferece um processo para definir essas reservas na maior parte do oceano, que está além dos limites nacionais.
Então, há uma complementaridade que permitirá aos Estados-membros [do tratado] propor áreas marinhas protegidas e conectar isso com seus ativos nacionais de biodiversidade. Existem muitas conexões [entre as águas internacionais e a zona econômica marinha de cada país]: os peixes viajam, as espécies migram. Isso também é muito importante.
🎤 Está sendo preparada a primeira cúpula das Nações Unidas sobre o Tratado do Alto-Mar. O que podemos aprender com outros processos, como a COP do clima, para tornar a implementação do BBNJ mais eficaz?
A importância de ter a ciência incorporada ao processo. Embora a Conferência das Partes [mecanismo diplomático da ONU] seja o órgão político que realmente toma decisões, é muito importante que haja uma forte contribuição científica nisso.
É por isso que existe um órgão científico e técnico que terá a tarefa de gerar conhecimento e assessorar os Estados-membros sobre avaliações de impacto ambiental. Ele também deve garantir que os dados dessas avaliações sejam sólidos.
Mas isso requer ter mais capacidades científicas em outros lugares, não apenas nos países ricos. Atualmente, este é o meu trabalho na COI-Unesco: ajudar países a construírem sua capacidade científica.
Termine de ler a entrevista clicando na Folha de S. Paulo
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