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O maior mar interior do mundo está desaparecendo

07/05/2026

A jornalista ambiental iraniana Maryam passou boa parte de sua infância às margens do mar Cáspio. De sua casa no litoral, na cidade de Rudsar, no norte do Irã, ela acompanhava as oscilações do nível da água —tão intensas que, nos anos 1990, enchentes forçaram alguns de seus parentes a deixar suas casas.
O sobe e desce constante das águas sempre lhe pareceu algo natural. Mas, em uma visita recente à região, após anos longe, ela não reconheceu mais aquele lugar.
"Continuei caminhando para dentro do mar, mas a água só chegava aos meus joelhos", contou Maryam, cujo nome verdadeiro a DW optou por não divulgar por razões de segurança. "Para alguém que cresceu junto a esse mar, foi assustador."
O mar Cáspio, o maior corpo de água interior do mundo, cercado por Irã, Rússia, Azerbaijão, Turcomenistão e Cazaquistão, está encolhendo rapidamente.
Embora o Cáspio, de águas salobras, tenha passado por flutuações ao longo da história, cientistas afirmam que a atual queda no nível da água, iniciada nos anos 1990, dificilmente será revertida. Projeções apontam para um recuo ainda maior ao longo deste século, com alguns modelos indicando uma possível redução de até 21 metros.
"Para se ter uma ideia, uma diminuição de 18 metros, por exemplo, é maior do que a altura de um prédio de seis andares", explica Simon Goodman, biólogo evolucionista da Universidade de Leeds, no Reino Unido. "Um declínio desse porte teria impactos significativos sobre os ecossistemas, além de afetar a saúde humana, o bem-estar e a atividade econômica."
Diversos fatores explicam a retração. Vários rios deságuam no Cáspio, mas cerca de 80% de sua água doce vem do norte, por meio do rio Volga, na Rússia. Durante décadas, o volume de água que chega ao mar foi influenciado por represas, irrigação e outras formas de manejo hídrico —especialmente na bacia do Volga. Mas, segundo Goodman, o cenário atual é mais complexo.
"As projeções para o restante deste século indicam que os declínios contínuos terão um componente muito mais forte relacionado às mudanças climáticas", afirma.
O aumento das temperaturas globais, associado às emissões provenientes da queima de petróleo, gás e carvão, está intensificando a evaporação na superfície do mar. Somado à diminuição das chuvas e do escoamento de água para a bacia do Volga, o resultado é que mais água está saindo do Cáspio do que entrando.
Alguns efeitos já são visíveis, especialmente na região norte do Cáspio, entre Rússia e Cazaquistão. Essa área é mais rasa, e a queda contínua do nível da água tem tornado a pesca cada vez menos viável, explica Goodman. Um recuo de dez metros, por exemplo, secaria completamente grandes áreas dessa região, eliminado quase um terço da superfície total do mar.
No nordeste do grande lago, uma área que antes servia de abrigo para milhares de focas durante a muda de pelos na primavera hoje é terra seca. "Já estamos perdendo habitats ecologicamente importantes devido à diminuição do nível do mar", afirma Goodman.
Os efeitos são visíveis também ao longo da costa iraniana, ao sul. Maryam lembra como os mercados eram grandes e movimentados, em contraste com o atual movimento minguado devido ao baque na atividade pesqueira. "O litoral que víamos quando crianças é muito diferente do que vemos hoje", afirma. Um café que antes ficava à beira d´água agora está vários metros para dentro do continente, relata.
Em todo o mar Cáspio, portos exigem dragagens frequentes para manter o acesso de embarcações, explica o biólogo, acrescentando que esses desafios "devem se intensificar nos próximos cinco a dez anos".

Fonte: Folha de S. Paulo

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