
12/03/2026
A crise climática está afetando desproporcionalmente os rendimentos das mulheres rurais, das pessoas que já vivem na pobreza e das populações mais idosas, uma vez que a capacidade de reagir e adaptar-se a fenômenos climáticos extremos é desigual, afirma um novo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).
Nos países de baixa e média renda, os impactos do clima pesam mais sobre as mulheres que vivem em áreas rurais. Famílias chefiadas por elas registram perdas maiores de renda diante de eventos extremos: cerca de 8% a mais por causa do estresse térmico e mais de 3% devido a inundações, na comparação com lares liderados por homens. Em valores, isso representa uma redução média de 83 dólares por pessoa associada ao calor extremo e de 35 dólares provocada por enchentes — um prejuízo que, somado, chega a 37 bilhões e 16 bilhões de dólares, respectivamente, em todos os países de baixa e média renda.
Se as temperaturas médias aumentassem apenas 1°C, estas mulheres enfrentariam uma perda surpreendente de 34% nos seus rendimentos totais em comparação com os homens. Considerando as diferenças significativas existentes na produtividade agrícola e nos salários entre mulheres e homens, o estudo sugere que, se não forem abordadas, as alterações climáticas aumentarão enormemente estas disparidades nos próximos anos.
Todos esses dados constam no “Clima Injusto”, relatório da FAO que analisou dados socioeconômicos de mais de 100 mil agregados familiares rurais (representando mais de 950 milhões de pessoas) em 24 países de baixa e média renda. Ao integrar esta informação com 70 anos de dados diários georreferenciados de precipitação e temperatura, o relatório examina como vários fatores climáticos afetam os rendimentos, o trabalho e as estratégias de adaptação das pessoas, diferenciando com base na riqueza, gênero e idade.
O estresse térmico, ou a sobreexposição a altas temperaturas, agrava a disparidade de rendimentos entre famílias rurais classificadas como pobres, que sofrem perdas cerca de 5% maiores (17 dólares per capita) do que vizinhos em melhor situação, um padrão semelhante ao observado nos impactos das inundações. As temperaturas extremas também agravam o trabalho infantil e aumentam a carga de trabalho não remunerada das mulheres nesses domicílios. Segundo Qu Dongyu, diretor-geral da Food and Agriculture Organization, fatores sociais como localização, renda, gênero e idade influenciam diretamente a vulnerabilidade das populações rurais aos efeitos da crise climática. “As diferenças sociais baseadas na localização, na riqueza, no gênero e na idade têm um impacto poderoso na vulnerabilidade das populações rurais”, afirmou.
Na verdade, barreiras como o acesso a recursos, serviços e oportunidades de emprego afetam a capacidade da população rural de se adaptar e lidar com as mudanças climáticas. Por exemplo, normas e políticas discriminatórias impõem um fardo desproporcional às mulheres em termos de cuidados e responsabilidades domésticas, limitam os seus direitos à terra, impedem-nas de tomar decisões sobre o seu trabalho e dificultam o seu acesso à informação, ao financiamento, à tecnologia e a outros serviços essenciais.
Da mesma forma, os agregados familiares liderados por jovens têm mais facilidade em encontrar oportunidades de emprego fora da agricultura durante condições climáticas extremas, em comparação com os agregados familiares mais velhos. Isto torna os seus rendimentos menos susceptíveis a estes eventos. As condições meteorológicas extremas também obrigam as famílias rurais empobrecidas a recorrerem a estratégias de sobrevivência inadequadas que podem incluir a venda de gado e a transferência de despesas para fora das suas explorações agrícolas. Estas ações, no entanto, exacerbam a vulnerabilidade a longo prazo.
O relatório sugere que a resposta a estes desafios requer intervenções específicas a fim de capacitar várias populações rurais para se envolverem em medidas de adaptação ao clima. O estudo conclui que as populações rurais e as suas vulnerabilidades climáticas são pouco visíveis nos planos climáticos nacionais. Nas “contribuições nacionalmente determinadas” (conhecidas como NDC) e nos planos nacionais de adaptação dos 24 países analisados no relatório, apenas 6% das 4.164 ações climáticas propostas mencionam as mulheres, 2% mencionam explicitamente os jovens, menos de 1% mencionam as pessoas pobres e cerca de 6% referem-se a agricultores em comunidades rurais.
Da mesma forma, do total do financiamento climático monitorado em 2017/18, apenas 7,5 % foram destinados à adaptação às alterações climáticas; menos de 3% para a agricultura, silvicultura e outros usos da terra, ou outros investimentos relacionados com a agricultura; apenas 1,7% chegaram aos pequenos produtores.
As políticas agrícolas também perdem a oportunidade de abordar a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres e a interligação com suas vulnerabilidades, como as mudanças climáticas. Uma análise das políticas agrícolas dos países de baixo e médio rendimento feita pela FAO, no ano passado, mostrou que cerca de 80% das políticas não consideravam as mulheres e as alterações climáticas.
Entre vários destaques políticos, o relatório apela ao investimento em políticas e programas que abordem as vulnerabilidades climáticas multidimensionais das populações rurais. Recomenda também a ligação de programas de proteção social a serviços de aconselhamento que possam encorajar a adaptação e compensar os agricultores, tais como programas de assistência social.
O Roteiro Global da FAO para alcançar o ODS 2, sem ultrapassar o limiar de 1,5 °C, estabelece que as desigualdades de gênero, as ações climáticas e a nutrição são pontos simultâneos, e as ações devem abranger estas dimensões e promover a inclusão para mulheres, jovens e povos indígenas.
Acesse o relatório na íntegra, em inglês, no CicloVivo
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