
10/03/2026
Uma nova espécie de perereca descoberta no cerrado do noroeste de Minas Gerais reforça o que a ciência suspeita há anos: mesmo em biomas pressionados e relativamente estudados, ainda há formas de vida desconhecidas. Descrita na revista científica Zootaxa, a Ololygon paracatu foi registrada em apenas duas localidades no município de Paracatu, e, segundo estudos, pode existir exclusivamente naquela região.
De pequeno porte, os machos medem entre 20,4 e 28,2 milímetros, enquanto as fêmeas variam de 29,3 a 35,2 milímetros. A nova espécie apresenta diferenças morfológicas, acústicas e moleculares em relação a outras pererecas do mesmo gênero já conhecidas.
Para chegar à conclusão de que o anfíbio é uma espécie que ainda não havia sido descrita, pesquisadores combinaram análises genéticas, comparações da estrutura corporal detalhadas e gravações de vocalizações. Esse último é um elemento central na identificação de anfíbios, já que o canto é um dos principais mecanismos de diferenciação entre as espécies.
Em seguida, esse material foi comparado com espécies já catalogadas em coleções biológicas de museus e universidades para verificar se o organismo já foi descrito anteriormente ou se apresenta características inéditas.
"Os trabalhos começaram em 2018 quando fui pesquisar anfíbios daquela região de Minas Gerais para a minha tese de doutorado. Após coletar algumas pererecas para o estudo, comecei a perceber que ela tinha características, principalmente de som, diferentes entre si e com o detalhamento vimos que havia uma espécie ainda não descrita", conta Daniele Carvalho, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN-ICMBio) e primeira autora do estudo.
Para que uma nova espécie seja reconhecida, as diferenças precisam ser consistentes e sustentadas por múltiplas evidências. No caso da Ololygon paracatu, os dados indicaram que se trata de uma linhagem evolutiva distinta dentro de um grupo de pererecas já conhecido. Só então os pesquisadores elaboram a descrição formal, publicada em revista especializada, tornando o nome válido para a comunidade científica.
Segundo os pesquisadores, a descoberta destaca a importância da preservação ambiental. O rio Paracatu, onde as novas pererecas foram encontradas em suas cabeceiras, é um dos mais relevantes afluentes do rio São Francisco no estado mineiro. O estudo demonstra que ainda há muita biodiversidade a ser descoberta no cerrado e reforça a urgência da conservação do bioma.
"A presença dessa espécie na cabeceira do rio mostra que o local possui água de qualidade e isso evidencia o potencial de recuperação do rio, que em outros trechos é poluído e está ameaçado pela mineração e pelo desmatamento", explica Reuber Brandão, professor do departamento de engenharia florestal da Universidade de Brasília (UnB).
O cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e abrange áreas de Goiás, Tocantins, Distrito Federal, Bahia, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí, Rondônia e São Paulo. Também ocorre em áreas disjuntas ao norte de Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, e ao sul, em pequenas "ilhas" no Paraná.
Dados do Mapbiomas apontam que nos últimos 40 anos, o bioma perdeu 40,5 milhões de hectares, equivalentes a 28% de vegetação nativa.
Há também implicações científicas mais amplas. Anfíbios são considerados bioindicadores sensíveis por terem pele permeável e ciclo de vida ligado à água, respondem rapidamente a mudanças ambientais e à presença de poluentes. O declínio dessas populações pode sinalizar desequilíbrios ecológicos que afetam outros organismos, inclusive os seres humanos.
"A presença dessas pererecas indica a qualidade ambiental do lugar, enquanto o entorno já está bastante degradado. Em outros rios próximos, a nova espécie já não foi encontrada, muito provavelmente devido à degradação ambiental. Isso nos mostra a necessidade de preservação dessas nascentes e do ambiente como um todo para que o local não sofra com a crise hídrica, que já assola diversos locais", acrescenta a pesquisadora.
Além disso, a biodiversidade é fonte potencial de compostos com aplicação médica. Substâncias produzidas na pele de anfíbios já demonstraram propriedades antibacterianas e antifúngicas em estudos laboratoriais.
A descoberta de uma nova espécie não garante, por si só, o desenvolvimento de medicamentos, mas amplia o repertório genético conhecido e, com ele, as possibilidades futuras de pesquisa. "Ainda é cedo para falar se essa nova espécie vai dar origem a algum fármaco, mas ela mostra o potencial do xerrado em ampliar a biotecnologia", diz Brandão.
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