
26/02/2026
Pela primeira vez fora de períodos de retração econômica, a China sustenta uma trajetória prolongada de estabilidade — e leve queda — nas emissões de dióxido de carbono. Há 21 meses, desde março de 2024, o maior emissor do planeta não vê seus índices avançarem de forma consistente. No último trimestre de 2025, as emissões recuaram 1% em relação ao mesmo período do ano anterior, sinalizando um fechamento de ano com redução estimada de 0,3%. O dado consolida um momento inédito na história recente do país, em que crescimento econômico e contenção das emissões passaram a coexistir.
A constatação integra a análise mais recente da Carbon Brief, que aponta um equilíbrio delicado: enquanto as emissões associadas aos combustíveis fósseis avançaram cerca de 0,1% em 2025, esse aumento foi neutralizado por uma queda expressiva de 7% nas emissões ligadas à produção de cimento. O resultado final é um quadro de estagnação — ou leve recuo — das emissões totais, sustentado por mudanças estruturais no sistema energético e industrial. Quase todos os grandes setores da economia chinesa contribuíram para esse movimento. Transportes, geração de energia, indústria metalúrgica e materiais de construção registraram retrações relevantes nas emissões em comparação a 2024. A exceção foi a indústria química, que seguiu trajetória oposta e teve crescimento expressivo, impulsionado pelo maior uso de carvão e petróleo. Esse desempenho isolado foi suficiente para limitar a queda geral das emissões no país.
No coração dessa transformação está o setor elétrico. Em 2025, a expansão das fontes renováveis foi decisiva para reduzir a dependência do carvão. A geração solar cresceu 43% em relação ao ano anterior, a eólica avançou 14% e a nuclear, 8%. Esse salto permitiu uma redução de 1,9% na geração a partir do carvão, mesmo diante de uma demanda crescente por eletricidade. Ao mesmo tempo, a capacidade de armazenamento de energia teve um avanço recorde, superando com folga o crescimento da demanda máxima do sistema. Esse descompasso positivo — mais capacidade limpa e mais armazenamento do que necessidade imediata — indica que a infraestrutura energética chinesa começa a se antecipar aos picos de consumo. Historicamente, esses eles justificaram a construção de novas usinas a carvão e gás. Em 2025, porém, o crescimento do armazenamento, sobretudo em baterias, passou a oferecer uma alternativa concreta para lidar com essas pressões sem ampliar o uso de combustíveis fósseis.
Ainda assim, o quadro não é linear. Parte das reduções obtidas em setores tradicionais foi compensada pelo avanço da indústria química, onde o consumo de carvão e petróleo cresceu de forma significativa. Em segmentos como áreas industriais, o aumento do uso de gás praticamente anulou os ganhos decorrentes da redução do carvão. O resultado é um equilíbrio frágil, em que a queda das emissões depende cada vez mais de decisões setoriais específicas. O crescimento da demanda por eletricidade em 2025 ilustra bem essa dinâmica. Todo o aumento foi atendido pela expansão da geração limpa, com destaque para solar, eólica e nuclear. Hidrelétricas e bioenergia também contribuíram, ajudando a reduzir a participação dos combustíveis fósseis no mix elétrico. Ainda assim, a geração a gás avançou, enquanto o carvão recuou de forma mais modesta. Parte da nova capacidade renovável instalada no fim do ano só deverá produzir efeitos plenos a partir de 2026.
A análise aponta, porém, um alerta importante: a geração efetiva de solar e eólica ficou abaixo do potencial da capacidade instalada, sugerindo gargalos na rede elétrica e possíveis desligamentos não reportados por sobrecarga. Caso esses entraves sejam resolvidos, a energia limpa já disponível pode ganhar ainda mais peso, reforçando a tendência de estabilização das emissões. Desde 2023, a China vive um padrão consistente: a geração de energia limpa cresce mais rápido do que a demanda total. Esse é o principal fator por trás da estabilidade observada desde o início de 2024. Em 2025, esse movimento ganhou um novo componente estratégico com o avanço do armazenamento de energia, que cresceu mais rápido do que a demanda máxima e acima da média da última década.
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