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Parasita que pode infectar humanos é detectado pela primeira vez em onças no pantanal

01/04/2025

Maior carnívoro das Américas e o terceiro maior do mundo —fica atrás apenas do tigre e do leão—, a onça-pintada é um símbolo da fauna brasileira, celebrada até na nota de R$ 50. Em nosso país, pode ser encontrada tanto nas exuberantes mata atlântica e floresta amazônica como em paisagens mais devassadas, como a caatinga e o cerrado.
Porém, é no pantanal, o maior bioma alagável do mundo, que um estudo conduzido pela Unesp está lançando novas luzes e ajudando a facilitar a convivência entre o ser humano e a pantera onça.
A espécie possui como um de seus trunfos grande capacidade de adaptação. Porém, seus recursos estão sendo testados pelas ações humanas, que cada vez mais vêm transformando a paisagem do pantanal ao promoverem a destruição do habitat e a redução das populações de suas presas naturais.
"Tudo isso aumenta os conflitos entre esses animais e os agricultores e produtores rurais", diz Ricardo Boulhosa, presidente da ONG Instituto Pró-Carnívoros, e que há mais de trinta anos acompanha as grandes pintadas. Estes conflitos opõem as onças, que atacam o gado das fazendas do pantanal em busca de novas fontes de alimento, aos produtores rurais, que empregam armas de fogo sempre que necessário para defender seus rebanhos.
Monitorando esta difícil convivência estão pesquisadores e ambientalistas interessados em assegurar a continuidade da espécie, hoje classificada como quase ameaçada. Dentre as diversas ações em andamento no país, um estudo identificou, pela primeira vez nos animais que habitam a região, a presença do parasita Spirometra spp., que é capaz de contaminar humanos.
O parasita foi encontrado por meio da análise laboratorial de amostras fecais das onças-pintadas coletadas entre 2022 e 2024 na região da Fazenda Piuval, perto da cidade de Poconé, em Mato Grosso.
Na área, que tem aproximadamente sete mil hectares, já foi registrada a presença de nada menos do que 24 onças. Estima-se que nove ou dez habitam a região. O patógeno foi identificado por meio de sequenciamento genético, realizado em laboratório da Unesp.
A descoberta do Spirometra spp. nas onças da Fazenda Piuval foi um dos resultados do mestrado do médico-veterinário Paul Raad, que cursou o Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu. "A presença do Spirometra spp. nas fezes das onças sugere que ele está circulando pelo ecossistema dessa região, onde nunca fora encontrado, e pode afetar outros animais e também seres humanos", explica Raad.
Além de trazer novas informações sobre zoonoses e ecologia, os resultados do estudo de Raad valorizam o conceito de "saúde única", adotado pelo pesquisador há quase uma década. Essa abordagem vê a saúde dos seres humanos, dos animais e do ecossistema de forma interligada, destacando a importância de considerar todos esses elementos em conjunto para promover uma saúde integral.
"É uma forma estratégica de ciência, que promove a colaboração entre diversas disciplinas para monitorar patógenos e prevenir surtos antes que se tornem um problema de saúde pública", diz Raad.
Os pesquisadores analisaram um total de 40 amostras de fezes de onças durante o estudo. "Os resultados indicaram uma alta prevalência do parasita. Cerca de um terço das amostras testou positivo, o que é bastante", avalia Felipe Fornazari, professor assistente-doutor na área de zoonoses na FMVZ e orientador do trabalho de mestrado de Raad.
O parasita identificado pode causar esparganose, uma doença que afeta humanos de diversas formas. A infecção ocorre quando uma pessoa ingere água contaminada com copépodes (Cyclops e outros pequenos crustáceos de água doce) infectados ou consome carne malcozida de hospedeiros intermediários, como anfíbios e répteis. As larvas normalmente se alojam no tecido subcutâneo, formando nódulos.
Em casos mais graves, podem atingir músculos, olhos e o sistema nervoso central, causando dor, inflamação, convulsões e até cegueira. Há também uma forma rara e agressiva, a esparganose proliferativa, na qual as larvas se multiplicam e se espalham por múltiplos órgãos.
Diferentemente da teníase, causada pelo gênero Taenia, em que os vermes se desenvolvem no intestino e eliminam ovos nas fezes (podendo levar à cisticercose quando os ovos de Taenia solium são ingeridos), as larvas de Spirometra permanecem migrando pelos tecidos e não atingem a fase adulta no corpo humano.
O diagnóstico da esparganose geralmente é feito por exames de imagem ou pela remoção cirúrgica da larva, com confirmação laboratorial. A prevenção inclui o consumo de água filtrada ou fervida e a ingestão de carnes bem cozidas.
Em animais que atuam como hospedeiros definitivos do parasita, o patógeno se desenvolve em seu intestino e é excretado nas fezes, como ocorre com a onça. Quando as larvas eclodem e deixam os ovos, elas cumprem parte de seu ciclo no meio aquático, podendo ser ingeridas por diversos tipos de hospedeiros intermediários.
Os animais que ingerem os ovos ou larvas do parasita podem se tornar hospedeiros intermediários, como copépodes (pequenos crustáceos que vivem nas águas), anfíbios e porcos. Esses hospedeiros podem apresentar sintomas variados, dependendo da fase do parasita em seu ciclo de vida.
Ainda que não costume afetar significativamente a saúde das onças, sua presença é um indicativo da saúde do ecossistema e pode alertar sobre potenciais riscos para a saúde humana.
Os porcos, domésticos ou javalis, podem também se tornar hospedeiros definitivos, completando o ciclo do parasita quando devorados pelas onças.
Aliás, é importante lembrar que porcos-monteiros e javalis, que existem em grande número no Pantanal, são espécies invasoras, e poderiam afetar gravemente a saúde de nossos ecossistemas caso as onças não os predassem.

Conclua a leitura desta reportagem clicando na Folha de S. Paulo

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