
10/09/2026
O trecho da montanha cujo colapso desencadeou inundações mortais no Nepal e na China enfrentou um calor sem precedentes para essa época do ano, segundo Robert Rohde, cientista-chefe da organização independente Berkeley Earth, sediada na Califórnia.
A partir da análise de dados meteorológicos, Rohde estima que a temperatura média na geleira da montanha, que fica uma altitude de 5.200 metros, ficou perto de 5°C entre 21 e 26 de agosto —temperatura excepcionalmente alta mesmo durante o verão.
Em mais de 55 anos de registros, elas não haviam ultrapassado os 4°C no mesmo período. No entanto, até o momento não foi estabelecida nenhuma relação direta do calor com o colapso.
No local do colapso, a temperatura média registrada durante esse período de seis dias aumentou cerca de 1,8°C desde meados do século 20. Sem o aquecimento global provocado pelas atividades humanas, um padrão de temperaturas comparável "provavelmente ocorreria apenas uma vez a cada vários milhares de anos", afirma Rohde.
Ele utilizou dados do modelo climático ERA5, do observatório europeu Copernicus, e uma rede de 14 estações meteorológicas de alta altitude, localizadas entre nove e 140 quilômetros de distância da geleira que colapsou.
Até o momento, este é quarto verão mais quente já registrado na região de Langtang, segundo análise da AFP baseada em dados do Copernicus, que remontam a 1970.
"O calor também pode explicar o degelo do permafrost e o colapso combinado da encosta e da geleira", diz a climatologista Valérie Masson-Delmotte.
O permafrost é uma camada de solo permanentemente congelada que existe nas regiões polares. Ele funciona como um cimento de gelo, mantendo unidas as paredes rochosas. Sua degradação torna essas estruturas mais instáveis.
Imagens de satélite também mostraram um derretimento significativo da neve nos dias anteriores ao desastre. "Isso gerou uma fonte considerável de água que pode se infiltrar nas fraturas da montanha e facilitar os deslizamentos de terra", afirma a glaciologista Etienne Berthier, da agência de pesquisa nacional francesa.
Os especialistas, no entanto, são cautelosos quanto ao papel exato desempenhado pela onda de calor.
"Não é tão simples quanto dizer que ‘temperatura alta equivale a colapso’", explica a geomorfóloga Kristen Cook, da Universidade Grenoble Alpes, na França.
Os pesquisadores agora examinam os pequenos movimentos observados na montanha nos anos anteriores ao colapso e sua interação com as variações de temperatura.
"Demonstrar que a rocha próxima à fratura estava significativamente enfraquecida em decorrência da água do degelo e/ou do degelo do permafrost seria uma evidência clara das mudanças climáticas", diz Rohde, da Berkeley Earth.
Fonte: Folha de S. Paulo
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