
11/06/2026
Quando comecei a trabalhar com iniciativas ecológicas, há mais de uma década, a palavra da vez era transformação.
Depois veio a sustentabilidade. Depois impacto. Depois ESG. Agora parece ser a vez da regeneração.
As palavras mudam. E as urgências também.
Nos últimos meses, tenho visto a palavra regeneração aparecer em lugares muito diferentes para além da agricultura, como em relatórios corporativos, campanhas publicitárias, eventos e embalagens.
Isso é um sinal positivo por um lado. Mas preocupante por outro. Porque já vimos esse filme.
Recentemente, facilitei uma roda de conversa sobre sustentabilidade e regeneração no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. E logo no começo, eu perguntei para a sala: “Quem aqui fica desconfiado quando uma empresa se apresenta como sustentável?” Todos levantaram as mãos, 100% mesmo.
E olha que não era uma sala de pessoas céticas em relação às questões ambientais. Eram educadores, gestores, biólogos, empreendedores e profissionais que já tinham alguma relação com o tema. Mesmo assim, era claro que a palavra perdeu força.
Talvez porque, ao longo dos anos, a sustentabilidade tenha sido banalizada. Os exemplos genuínos passaram a dividir espaço com campanhas bem produzidas, relatórios sofisticados e ações desenhadas mais para comunicar do que para transformar. Os que fazem o trabalho sério passaram a sofrer as consequências do greenwashing praticado por outros.
O resultado é que muita gente já não sabe exatamente o que esperar quando ouve a palavra.
É por isso que me preocupa ver a regeneração seguindo um caminho parecido. Não porque o conceito seja vazio. Mas porque conceitos poderosos costumam ser capturados quando começam a ganhar relevância.
O mercado aprende a tomar conta da palavra, se apropriar, até porque, cá entre nós, mudar a lógica costuma levar mais tempo.
Recentemente ouvi um episódio da Nova Acrópole com a filósofa Lúcia Helena Galvão e o ecólogo Fábio Scarano (vale muito a pena pesquisar o nome dos dois!).
Durante a conversa, Scarano descreveu nossa situação atual como uma policrise. Estamos vivendo ao mesmo tempo uma crise climática, uma crise de biodiversidade, uma crise econômica e uma crise humanitária.
Mas existe algo atravessando todas elas: uma crise de imaginação. E eu entendo perfeitamente a dificuldade de sonhar com um cenário nunca visto, a regeneração é totalmente novo.
Ao longo da última década, tive a oportunidade de conhecer agricultores, cooperativas, negócios comunitários, empreendedores sociais, mulheres indígenas, projetos de restauração e iniciativas locais espalhadas pelo Brasil. Muitas dessas experiências já fazem, na prática, aquilo que hoje começamos a chamar de regeneração.
Elas geram renda. Fortalecem territórios. Recuperam ecossistemas. Produzem alimentos. Criam relações econômicas mais saudáveis.
E fazem tudo isso há anos. Um exemplo é João Neto, agricultor em Mococa (SP), que há 36 anos produz café e floresta ao mesmo tempo.
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