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Lagarto de Fernando de Noronha tem reprodução lenta e pode ficar mais vulnerável

11/06/2026

Quem visita o arquipélago de Fernando de Noronha, situado a cerca de 545 km da costa de Pernambuco, no nordeste do Brasil, logo nota um pequeno lagarto. Aparentemente onipresente, ele circula entre pedras, trilhas e áreas urbanizadas, aproxima-se das pessoas, disputa alimento à vista de todos e raramente foge.
Esse animal é a mabuia-de-Noronha (Trachylepis atlantica), uma espécie que vive exclusivamente nesse arquipélago no Atlântico.
Ao estudar em detalhe a sua reprodução, descobrimos que ela apresenta uma das estratégias reprodutivas mais lentas conhecidas entre seus parentes. Essa estratégia provavelmente se moldou ao longo de uma longa história evolutiva em ambiente insular, mas agora pode se tornar um problema em um mundo em rápida transformação.
À primeira vista, a mabuia-de-Noronha pode parecer apenas mais um lagarto tropical. Mas sua história evolutiva é incomum. Seus parentes mais próximos pertencem a uma linhagem de origem africana. Como, então, essa linhagem acabou isolada em uma pequena ilha brasileira no meio do Atlântico?
A explicação mais aceita é que os ancestrais da espécie chegaram ao Atlântico Sul por dispersão transoceânica, provavelmente em massas flutuantes de vegetação carregadas por correntes marinhas. Essa jornada talvez não tenha ocorrido em uma única travessia direta até Fernando de Noronha, mas em etapas, possivelmente via paleo-ilhas (que existiram em épocas geológicas passadas) hoje submersas.
Uma vez estabelecidos no arquipélago, esses lagartos permaneceram isolados, provavelmente por milhões de anos, e passaram a viver sob condições muito diferentes daquelas encontradas no continente africano.
Ilhas oceânicas são frequentemente chamadas de “laboratórios naturais da evolução”. Por serem pequenas e isoladas, geralmente abrigam menos espécies do que ambientes continentais. Isso altera profundamente as interações ecológicas.
Muitas vezes, há menos predadores e menos competidores de outras espécies. Ao mesmo tempo, as populações que conseguem colonizar a ilha podem atingir densidades elevadas.
Esse conjunto de condições pode favorecer o surgimento da chamada “síndrome da ilha”, um padrão evolutivo que afeta aspectos como comportamento, tamanho corporal, dieta, fisiologia e estratégias reprodutivas.
Em ambientes continentais, muitos animais enfrentam alta mortalidade causada por predadores e outros riscos. Nesses contextos, produzir muitos filhotes aumenta a chance de que ao menos alguns sobrevivam.
Em ilhas oceânicas, porém, o cenário costuma ser diferente. Com menor pressão de predadores e populações frequentemente densas, a competição por recursos tende a ser intensa entre indivíduos da mesma espécie. Nessas circunstâncias, investir mais energia em menos descendentes pode ser vantajoso. Filhotes maiores podem ter melhores chances de competir por alimento e espaço em ambientes populosos. Foi exatamente esse padrão reprodutivo que encontramos na mabuia-de-Noronha.
Para descrever a estratégia reprodutiva da espécie, estudamos indivíduos coletados em campo, espécimes preservados em coleções científicas e espécimes de zoológico.
O padrão que emergiu foi claro. A reprodução ocorre em um período relativamente restrito do ano, na estação seca. Nem todas as fêmeas se reproduzem anualmente: nossos dados sugerem que muitas só se reproduzem a cada dois ou até três anos. Quando isso acontece, produzem apenas dois ovos por vez, um número muito baixo para lagartos desse grupo. Esses ovos, porém, são grandes em relação ao tamanho do corpo materno, o que indica alto investimento em cada filhote.
Em comparação com espécies aparentadas do continente africano e de ilhas maiores, a combinação de poucos ovos mais volumosos e baixa frequência reprodutiva concentrada em um período curto do ano é incomum. Esse é o tipo de ajuste reprodutivo previsto para espécies moldadas sob condições típicas de ilhas oceânicas.
Em Noronha, essa estratégia pode ter sido favorecida pela combinação entre menor pressão de predadores, alta densidade populacional e sazonalidade de recursos. Ali, a disponibilidade de alimento varia ao longo do ano e pode influenciar quando e quanto os animais conseguem investir em reprodução.

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