
30/04/2026
A crescente demanda por minerais críticos, essenciais para tecnologias como veículos elétricos, energia renovável e inteligência artificial, está provocando impactos ambientais e sociais profundos, principalmente em países mais vulneráveis. Um novo relatório da Universidade das Nações Unidas aponta que essa transição energética, embora necessária, reproduz desigualdades globais já vistas na indústria do petróleo.
A corrida global por minerais como lítio, cobalto e níquel tem sustentado o avanço de soluções consideradas “verdes”. No entanto, os benefícios dessas tecnologias estão concentrados em países ricos, enquanto os custos ambientais e sociais recaem, em grande parte, sobre comunidades da África e da América do Sul.
Segundo a investigação do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), falhas sistêmicas permitem que os impactos negativos da mineração sejam externalizados para regiões mais pobres.
O relatório não questiona a importância da energia limpa, mas levanta uma questão central: quem realmente paga o preço dessa transformação global? “As rupturas tecnológicas são necessárias e úteis. Mas devemos estar cientes e abordar proativamente as suas consequências não intencionais se quisermos que o mundo inteiro beneficie delas de forma igualitária”, afirma Kaveh Madani, diretor da UNU-INWEH, que liderou a equipe de investigação. “Não se pode chamar uma transição de verde, sustentável e justa se ela simplesmente transferir o dano ambiental dos ricos para os pobres, e de um grupo de pessoas ou região para outro.”
Um dos principais problemas apontados é o uso intensivo de água na mineração de minerais críticos. De acordo com o relatório “Minerais Críticos, Insegurança Hídrica e Injustiça”, a produção global de lítio em 2024 consumiu cerca de 456 bilhões de litros de água, o equivalente ao consumo anual de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana.
Regiões como o Salar de Atacama, no Chile, enfrentam uma pressão extrema sobre recursos hídricos. A extração de lítio responde por até 65% do consumo de água local, afetando a agricultura, o abastecimento doméstico e os níveis de água subterrânea.
Na Bolívia, a exploração na região de Uyuni já compromete a produção de quinoa, alimento essencial para comunidades locais.
Os impactos ambientais vão além da água. A produção de minerais de terras raras gera volumes massivos de resíduos tóxicos.
Para cada tonelada extraída, são produzidas aproximadamente 2.000 toneladas de resíduos. Em 2024, isso resultou em cerca de 707 milhões de toneladas métricas de lixo tóxico, equivalente a milhões de caminhões de resíduos.
O relatório compara os minerais críticos ao “petróleo do século XXI”, destacando o risco de repetição de padrões históricos de exploração. Para cumprir metas climáticas globais, a demanda por lítio pode crescer nove vezes até 2040, enquanto cobalto e níquel devem dobrar.
“Sem mecanismos de controle eficazes, as próprias metas criadas para proteger o planeta podem acelerar crises hídricas, de saúde e de injustiça nas comunidades menos responsáveis pelas mudanças climáticas”, afirma o Prof. Madani, recentemente agraciado com o Prêmio da Água de Estocolmo.
“O mundo está se mobilizando para construir um futuro energético mais limpo, e apoiamos essa urgência. Mas nossa investigação comprova que as operações de mineração que impulsionam essa transição estão contaminando a água potável, destruindo meios de subsistência agrícolas e expondo crianças a metais pesados tóxicos em algumas das comunidades mais vulneráveis do mundo.”
Na República Democrática do Congo, 72% das pessoas próximas a áreas de mineração relataram doenças de pele, enquanto 56% das mulheres e meninas enfrentam problemas ginecológicos. Além disso, há aumento significativo de defeitos congênitos em maternidades próximas a áreas de mineração, incluindo defeitos do tubo neural (que podem levar a graves defeitos cerebrais e da coluna vertebral em bebês).
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