
30/04/2026
Lembro o momento em que o drone decolou pela primeira vez sobre o campus da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, onde estou concluindo o mestrado. Havia algo tanto trivial quanto curioso naquilo: um mini-helicóptero, equipado com um sensor laser, sobrevoando árvores sob as quais as pessoas passam todos os dias. Horas depois, não apareceu no computador uma fotografia, mas uma nuvem de pontos, milhões deles, cada um registrando com precisão centimétrica a posição de um edifício, uma planta, um galho. A cidade em três dimensões.
Essa tecnologia, o LiDAR (Light Detection and Ranging), tem revolucionado o modo como os cientistas mapeiam as florestas. O princípio é elegante: o sensor emite pulsos de laser e mede o tempo que cada pulso leva para retornar após atingir uma superfície. Com isso, é possível reconstruir a estrutura tridimensional da vegetação sem tocar em uma única árvore.
Essa revolução, no entanto, tem seus pontos cegos. A maior parte das pesquisas de biomassa florestal utilizando LiDAR ocorre nas grandes florestas, enquanto as florestas urbanas, justamente aquelas que cercam os espaços onde a maioria das pessoas vive, seguem sendo um ponto cego da ciência global.
Há um paradoxo: se, por um lado, nos concentramos nas florestas em suas grandes extensões e continuidades, por outro, as árvores da praça, da calçada, do bairro, seguem anônimas. São elas que formam o que os ecólogos chamam de florestas urbanas: um mosaico de parques, fragmentos florestais, quintais e jardins.
E elas importam muito. Absorvem mais carbono da atmosfera do que emitem, regulam o microclima e reduzem o calor dos bairros. Em cenários de mudanças climáticas cada vez mais severas, saber quanto carbono está estocado nessas árvores é estratégico.
O que torna desafiador o mapeamento das árvores nas cidades tropicais é também a sua maior riqueza: a diversidade. Uma árvore isolada em uma praça cresce de forma diferente de uma árvore no interior de uma floresta, que tem mais espaço, mais luz, desenvolve copas largas, resultando em um porte distinto. Não faz sentido, portanto, aplicar a mesma medida para os dois casos.
Foi essa discrepância que motivou a pesquisa que desenvolvemos no sul de Minas Gerais. Combinando inventário de campo e sensoriamento remoto, construímos equações para dois contextos: um fragmento de floresta tropical e uma área urbana com árvores isoladas. Essas equações usam a altura total e a área da copa, métricas obtidas diretamente da nuvem de pontos, que estimam a biomassa e o carbono estocado em cada planta. Com um voo sobre a cidade, é possível medir centenas de árvores.
Os resultados são promissores. Os modelos mostraram bom desempenho e produziram estimativas equivalentes às de equações consagradas na literatura, mas que exigem medições de cada árvore. O que mais nos entusiasma, porém, não é o número em si, mas seu potencial.
Ter modelos ajustados à realidade das florestas urbanas significa poder mapear, com consistência, o estoque de biomassa das árvores das cidades. Implica, ainda, identificar quais bairros têm déficit de arborização e onde o investimento teria maior impacto climático. E, ao longo do tempo, monitorar se tais cidades estão, de fato, ficando mais verdes.
As árvores sob as quais as pessoas passam todos os dias têm muito a contar. Quanto mais cedo começarmos a mapeá-las com seriedade, mais funcionais e resilientes serão os nossos ecossistemas urbanos.
★
O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.
Fonte: Folha de S. Paulo
Em Laranjeiras, casal de maritacas faz ninho em apartamento e filhotes e acabam sob os cuidados de moradora; vídeo
05/11/2026
VÍDEO: Grupo de golfinhos é visto no mar da Ilha Grande, em Angra dos Reis
05/11/2026
Pesquisa da Ufes encontra peixes com tumores e deformidades 11 anos após desastre de Mariana; VÍDEO
05/11/2026
Brasil lança ´mapas do caminho´ para incentivar os países a diminuírem o desmatamento e o uso dos combustíveis fósseis
05/11/2026
5 regiões de recifes de coral estão em risco crítico no Brasil
05/11/2026
Cinco maneiras que o aumento do nível do mar pode afetar o Reino Unido e outros lugares
05/11/2026
