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Araras-azuis sobrevoam ninhos devastados por incêndios no pantanal

12/08/2024

Os incêndios que se espalham pelo pantanal atingiram dois refúgios ecológicos de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) —um localizado na Estância Caiman, em Miranda, em Mato Grosso do Sul, e outro na fazenda São Francisco do Perigara, em Barão de Melgaço, em Mato Grosso.
Ambos os refúgios são monitorados pelo Instituto Arara Azul. Na Caiman, onde funciona um centro de reprodução natural, a ONG disse que o fogo destruiu ninhos e as principais fontes de alimentos dessas aves, que estão ameaçadas de extinção.
Nesta quinta-feira (8), quando a chuva amenizou incêndios no bioma, colaboradores da ONG registraram em fotos e vídeos a devastação do ambiente. Em um dos vídeos, duas araras-azuis sobrevoam árvores onde ficavam alguns de seus ninhos.
Bióloga e presidente do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes, que atua há 30 anos com pesquisa científica das aves na Caiman, conta que o local era a principal base do grupo, justamente por não ter sido atingido em grande escala em outras temporadas de fogo no bioma.
"O centro de reprodução natural foi quase todo devastado. Era o nosso grande laboratório vivo para reprodução. Nós tínhamos, desde a década de 90, os ninhos monitorados. Instalei 60 caixas artificiais como ninhos e isso fez com que a população então aumentasse, se expandisse, porque na hora de se reproduzir ali elas encontravam um lugar seguro", explica.
"Esse incêndio de agora foi sem precedentes, nunca vi igual. Enfrentamos o fogo em 2019, 2020 e 2021, porém, esse é completamente impactante. Foi grandioso em termos de altíssimas temperaturas, velocidade do vento, rapidez com que o fogo se locomoveu, varrendo tudo. O pantanal está muito seco."
A fazenda São Francisco do Perigara, em Mato Grosso, chegou a ser devastada por incêndios também em 2020 –ano considerado o mais crítico do bioma, quando 30% da área total do pantanal foi consumida pelas chamas e cerca de 17 milhões de vertebrados morreram. "O fogo destruiu quase 95% da fazenda", lembra a bióloga.
Já o refúgio na Caiman queimou em 2019, mas não foi atingido em 2020.
Guedes destaca que, desde os primeiros registros de incêndios no pantanal, o comportamento e as características dos animais têm apresentado mudanças, mostram resultados de pesquisas realizadas ao longo dos anos.
Segundo ela, aumentou o número de aves com nanismo e ou tamanhos menores do que os esperados para a idade. Também foi constatado o crescimento da mortalidade de filhotes em decorrência da inalação de fumaça e queimaduras na pele, além da fome, devido à escassez de seus principais alimentos, os frutos acuris e bocaiúva.
Para amenizar esse problema, o instituto vai disponibilizar mais frutas para aves e manter o monitoramento das que ainda ficaram no local, mesmo após o incêndio, com incentivo na reprodução, afetada pelo ocorrido.
Nesta semana, trechos da rodovia BR-262 entre os municípios de Miranda e Corumbá, em Mato Grosso do Sul, tiveram que ser interditados devido aos incêndios que atingem o pantanal. O fogo na vegetação às margens da pista gerou fumaça densa na região, o que prejudica a visão de condutores de veículos.
Conforme estudo divulgado na quinta-feira (8) pela rede internacional de cientistas WWA (World Weather Attribution), as mudanças climáticas agravaram em 40% as condições de seca, calor e vento no pantanal que levam aos incêndios recordes que assolam o bioma neste ano.
De janeiro até esta sexta (9), o bioma teve 6.868 de focos de calor, o que representa um aumento de 1.987% comparado com o mesmo período do ano passado, quando eram 329, de acordo com o programa BDQueimadas, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
O acumulado atual supera também o de 2020, ano de recorde de destruição, para esse período: foram 6.121 focos na temporada até agosto.
Segundo o MMA (Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima), o pantanal teve, de 1º de janeiro até o domingo passado (4), cerca de 1.027.075 a 1.245.175 hectares queimados. A análise foi feita com dados do Laboratório de Aplicação de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ). Essa faixa representa uma perda de 6,8% a 8,3% do bioma.
Os incêndios de grandes proporções invadem fazendas e atingem reservas que abrigam santuários ecológicos, lares de onças-pintadas, cotias, macacos, antas, cobras, jacarés, entre outros animais.

Fonte: Folha de S. Paulo

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