
13/10/2026
Manaus amanheceu nesta sexta-feira (9) mais uma vez coberta de fumaça. A Defesa Civil disparou um alerta nos celulares pedindo que ninguém saia de casa sem máscara, as escolas municipais fecharam e a prefeitura colocou a cidade em estado de atenção. O céu cinza da capital é a face mais visível de uma crise que se espalha pelo estado: em setembro, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor, quase quatro vezes os 942 do mesmo mês de 2025.
O salto veio depois de um trimestre em que a chuva quase sumiu. De julho a setembro, Manaus acumulou 44 milímetros, uma quantidade ínfima perto dos 202 milímetros esperados para o período, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Agosto terminou sem chuva registrada, quando a média do mês é de 56 mm.
O ar que os moradores respiram mostra o tamanho do problema. Nesta sexta-feira, Manaus registrou a pior qualidade do ar do país segundo o Índice de qualidade do ar (AQI⁺), carregado de partículas liberadas pelas queimadas. Dentro da própria cidade, os bombeiros precisaram de um avião para conter um incêndio que já passava de 48 horas.
Segundo o pesquisador Luiz Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a origem do fogo segue um padrão conhecido nesta época do ano: queimadas para renovar pastagens e limpar áreas já abertas.
➡️ O que muda em 2026 é o cenário em que essas chamas são acesas. Com a floresta ressecada pela falta de chuva e pelo El Niño, o fogo escapa do controle e avança sobre a mata.
A proibição do uso do fogo em todo o estado só foi decretada pelo governo do Amazonas em 9 de setembro, quando agosto já havia fechado com 2.231 focos, acima dos 1.842 do ano anterior. O Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) pediu uma investigação para apurar se as ações do governo estadual contra queimadas, incêndios florestais e episódios de poluição foram efetivas.
A fumaça que encobre Manaus não é provocada apenas por incêndios próximos à capital, segundo explica Ane Alencar, diretora científica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Parte dela tem origem em queimadas realizadas em municípios localizados na margem direita do rio Amazonas, como Autazes, Careiro e Careiro da Várzea, onde o uso do fogo é recorrente.
Segundo Ane Alencar, o fenômeno não é necessariamente resultado de um aumento generalizado das queimadas. Dados do MapBiomas até agosto indicavam que a área queimada na Amazônia estava abaixo da média histórica para o período. No Amazonas, a redução era ainda mais expressiva, principalmente pela diminuição das áreas atingidas pelo fogo no sul do estado.
Além dos incêndios no entorno da capital, queimadas no Pará, especialmente nas regiões de Santarém e Itaituba, também contribuem para a fumaça que circula pelo Amazonas. Segundo Ane, essa fumaça pode ser transportada em direção a Parintins, acompanhando a margem direita do rio.
Outubro é o fim da estação seca na Amazônia e, com ele, o auge da temporada de queimadas. É nesta época, antes da chegada das chuvas, que produtores usam o fogo para renovar pastagens, eliminar ervas daninhas e limpar a vegetação que volta a crescer em áreas já abertas.
Esse tipo de queima pode ser autorizado por órgãos ambientais, com limites de área. Porém, com a vegetação seca, as chamas ganham proporções que fogem de qualquer controle.
E isso se reflete nos números: os focos neste ano superam os de 2025.
A matéria na íntegra pode ser lida no g1
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