
04/08/2026
A conservação do cerrado, bioma pressionado pelo desmatamento, depende de remunerar as comunidades que protegem os ecossistemas. É com base nessa lógica que a Copabase (Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo), sediada em Arinos, no norte de Minas Gerais, comercializa frutos e castanhas cultivados por pequenos produtores e gera renda para 140 famílias.
A cooperativa coleta a produção nas casas dos agricultores e se responsabiliza pela logística para além das porteiras, incluindo processamento, rotulagem e venda. Sem a agroindustrialização, cada produtor teria muito mais dificuldade para negociar suas colheitas individualmente.
O faturamento alcançou R$ 3,2 milhões em 2025, o segundo maior valor desde a fundação em 2008, sendo 64,7% com polpas congeladas de frutas e 31,7% com castanha de baru —alimento nativo do cerrado e de alto valor nutricional que atrai consumidores na Europa e no Oriente Médio.
Um único contrato de exportação de 800 kg de baru para uma empresa dos Emirados Árabes Unidos, fechado neste ano, foi negociado no valor de R$ 68 mil. "A castanha é mais conhecida lá fora do que no Brasil. Não deveria ser assim, mas é a realidade", diz Dionete Figueiredo, gestora da Copabase.
Ela explica que o pagamento às famílias é feito de forma adiantada, antes de a matéria-prima ser processada. É um avanço em relação ao início da cooperativa, quando só era possível remunerar os cooperados depois das vendas. No final de cada ano, os agricultores ainda recebem a sobra, ou seja, a partilha dos lucros com a comercialização dos produtos.
A Copabase atua na região do mosaico Sertão Veredas-Peruaçu, um conjunto de unidades de conservação na margem esquerda do rio São Francisco, e segue o modelo da bioeconomia, sistema produtivo que valoriza e conserva os ecossistemas.
Em 2023, recebeu aporte de R$ 4,9 milhões do programa Copaíbas, vinculado ao Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade), para fortalecer a autonomia das famílias agroextrativistas. O projeto tem a meta de reduzir o desmatamento na amazônia e no cerrado, com doações da Iniciativa Internacional da Noruega para Clima e Florestas.
O financiamento permitiu a compra de equipamentos, a contratação de funcionários para assistência técnica aos produtores e a realização de obras de expansão da agroindústria da cooperativa em Arinos, onde os frutos são processados.
Além das castanhas torradas, a Copabase passou a vendê-las cobertas com chocolate, o que aumentou o valor agregado. "Traz um toque de sofisticação e, ao mesmo tempo, a essência do cerrado", afirma Figueiredo.
O casal de assentados Luiza de Oliveira, 56, e Adão Reinaldo Rodrigues, 59, trabalha com o extrativismo do baru em uma área de 49 hectares e relata aumento na renda familiar.
"Tem vezes que nós tiramos R$ 2.000 por mês, antes era bem menos", diz Oliveira, cooperada desde 2012. "A gente comprou muita coisa com o dinheiro do baru, a gente vive muito melhor."
Antigamente, o casal batia de porta em porta em Arinos, cidade de 17 mil habitantes, para vender as castanhas, conta Rodrigues. "Agora, não, eles levam tudo o que a gente produz. Para nós, foi uma renda muito boa."
Não é um caso isolado. Figueiredo diz que a cooperativa registra um crescimento de 23,5% na remuneração mensal média aos agricultores de 2023 a 2025, graças à maior capacidade de processar os frutos.
Também houve aumento da produção: hoje, o casal entrega 2 toneladas anuais de castanhas e, antigamente, a colheita não passava de 30 quilos por ano, afirma Anny Caroliny Rocha, 29, gestora ambiental da Copabase.
"Se não tivesse a compra, eles iam desmatar para fazer a limpeza do pasto. Como a gente consegue comprar mais a produção, eles já reconhecem que a árvore do baru tem mais valor viva do que derrubada", diz Rocha.
Em 2024, o casal iniciou o cultivo de acerola, maracujá e goiaba em um sistema agroflorestal (SAF), que une a produção à preservação de espécies nativas da região. A expectativa é de geração de renda ao longo de todo o ano, já que as colheitas se alternam nos meses.
O agricultor Haroldo Barbosa, 63, é cooperado desde 2009 e se firmou como o principal fornecedor de goiabas na região. Desde o início do ano, já entregou 12 toneladas de frutas à cooperativa, cultivadas em uma área de apenas um hectare.
Ele diz que só planta em partes do terreno que estavam descampadas quando recebeu o lote durante a reforma agrária. "Não gosto desse negócio de desmatamento. A área que tenho aberta é onde mexo com as goiabas, o resto é tudo natural."
Barbosa também produz açafrão e acerola em SAF e preserva árvores do cerrado, como jenipapeiro, mutamba e angico-branco. Só com o açafrão, diz ter faturado R$ 14 mil ao longo de 2025.
"Eu consigo tirar R$ 4.000 por mês tranquilamente, trabalhando com as goiabas e o SAF. Antes, eu ganhava R$ 100, R$ 80 por dia. A vida era totalmente diferente", afirma. O agricultor conta que plantava milho e feijão no passado e quase não tinha renda.
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