
23/07/2026
Pela primeira vez, cientistas conseguiram acompanhar, do começo ao fim, o surgimento de um novo trecho do fundo do oceano enquanto ele acontecia. Em vez de reconstruir o processo a partir de marcas deixadas nas rochas, a equipe registrou em tempo real uma sequência que incluiu terremotos, abertura de uma fratura na crosta, ascensão de magma e derramamento de lava suficiente para criar uma nova porção do assoalho oceânico.
O fenômeno ocorreu em abril de 2024, em uma dorsal meso-oceânica no sul do Oceano Índico — região onde as placas tectônicas africana e australiana se afastam lentamente. Os resultados foram publicados na revista Nature e representam a observação mais completa já feita de um evento de expansão do fundo oceânico.
Além de revelar como nasce a crosta terrestre sob os oceanos, o estudo também oferece pistas sobre um antigo mistério da geologia: por que essas regiões acumulam menos terremotos do que os modelos teóricos previam.
As dorsais meso-oceânicas formam uma cadeia de cerca de 65 mil quilômetros que percorre os oceanos do planeta. Nelas, as placas tectônicas se afastam alguns centímetros por ano. Esse movimento abre espaço para que o magma proveniente do interior da Terra suba, esfrie e solidifique, formando continuamente uma nova crosta oceânica.
Embora esse mecanismo seja conhecido há décadas, nunca havia sido observado com tantos detalhes porque acontece a quilômetros de profundidade, em locais remotos e de difícil monitoramento.
Para superar esse desafio, pesquisadores franceses instalaram, em fevereiro de 2024, um observatório submarino próximo às ilhas Amsterdam e Saint-Paul, no Oceano Índico.
O sistema reunia hidrofones para detectar terremotos, sensores capazes de medir deslocamentos horizontais e verticais do fundo do mar e equipamentos para mapear a topografia submarina. Dois meses depois, o experimento registrou exatamente o fenômeno que os cientistas esperavam observar.
Às 19h56 (UTC) de 26 de abril de 2024, uma sequência de pequenos terremotos começou no centro da dorsal. Em poucos minutos, a atividade sísmica percorreu quilômetros ao longo da cadeia submarina, comportamento típico da propagação de um dique — uma fratura preenchida por magma.
Enquanto a fratura avançava, o reservatório de magma localizado abaixo da crosta começou a esvaziar. Como consequência, o fundo do vale submarino afundou cerca de quatro metros e sofreu mais de um metro de extensão horizontal.
Os pesquisadores interpretam essa deformação como resultado do colapso parcial do reservatório magmático que alimentou a erupção.
As medições mostraram que o magma alcançou o leito marinho e alimentou uma erupção que durou aproximadamente 16 dias.
Ao comparar mapas do fundo oceânico produzidos antes e depois do episódio, os pesquisadores identificaram extensos campos de lava recém-formados. Em alguns pontos, os depósitos ultrapassaram 90 metros de espessura.
No total, foram derramados entre 148 milhões e 160 milhões de metros cúbicos de lava — volume comparável ao observado em grandes erupções submarinas registradas anteriormente em outras dorsais oceânicas.
Há muito tempo, geólogos observam que as dorsais oceânicas liberam menos energia sísmica do que seria esperado para regiões onde as placas tectônicas estão constantemente se separando.
Os novos dados sugerem uma explicação.
Os modelos desenvolvidos pelos autores indicam que boa parte do deslocamento das falhas ocorre de forma lenta, sem produzir terremotos perceptíveis — um fenômeno conhecido como deslizamento assísmico.
Segundo as estimativas do estudo, cerca de 76% do movimento registrado durante esse episódio aconteceu dessa maneira, enquanto apenas 24% foi liberado por terremotos.
Outra descoberta chamou atenção da equipe.
Embora as placas tectônicas da região se afastem apenas cerca de 6,3 centímetros por ano, o conjunto de deformações observado durante o evento correspondeu ao acúmulo de aproximadamente 39 anos desse movimento.
Isso indica que a expansão do fundo oceânico não acontece de maneira totalmente contínua. Em vez disso, décadas de tensão podem se acumular e ser liberadas em poucos dias por meio da combinação de abertura de fraturas, deslocamento de falhas e erupções vulcânicas submarinas.
Os autores concluem que esses episódios representam os "eventos quânticos" da formação da crosta oceânica: momentos raros, mas decisivos, em que um novo pedaço do planeta é criado diante dos olhos da ciência.
Fonte: g1
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