
23/07/2026
Nos últimos anos, temas como burnout, crise climática, perda de biodiversidade e saúde mental passaram a ocupar espaço crescente no debate público. Embora geralmente tratados como desafios independentes, cresce a percepção de que esses fenômenos podem estar mais conectados do que parecem.
O Brasil, por exemplo, figura entre os países com maiores índices de ansiedade do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), e registra crescimento contínuo dos afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais.
Em 2024, os afastamentos por ansiedade e depressão atingiram os maiores patamares da série histórica do INSS. Ao mesmo tempo, a humanidade enfrenta o avanço das mudanças climáticas, aceleração da perda de biodiversidade e crescente pressão sobre os recursos naturais.
Para Tatiana Perim, fundadora e CEO do Ekôa Park, parque de experiências ecológicas, esses fenômenos podem ter mais em comum do que imaginamos.
Formada em Comunicação e Marketing pela University of Miami, com MBA pelo Insper e especialização em Gestão Ambiental pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Tatiana construiu sua trajetória entre o mundo corporativo, a gestão pública e a conservação da natureza.
O Ekôa Park, localizado na Mata Atlântica paranaense, no território da Grande Reserva Mata Atlântica, inspira as atividades que promove nos princípios da biomimética, área em que sua fundadora é mestranda pela Arizona State University (ASU), nos Estados Unidos.
Tatiana pesquisa justamente como os princípios que sustentam os sistemas vivos podem inspirar novas abordagens para liderança, inovação e regeneração. Sua atuação busca aproximar conhecimentos da natureza de desafios contemporâneos enfrentados por empresas, instituições e territórios.
Estudiosa dos sistemas vivos e de suas aplicações na inovação e na regeneração, ela defende que muitas das crises contemporâneas refletem uma mesma ruptura: o afastamento progressivo dos princípios que sustentam a vida na Terra há bilhões de anos.
Nessa entrevista exclusiva, Tatiana propõe uma reflexão sobre como a lógica do crescimento ilimitado, da hiper produtividade e da separação entre ser humano e natureza influencia não apenas a crise ambiental, mas também a forma como organizamos empresas, cidades, instituições e nossa própria compreensão sobre prosperidade, desenvolvimento e futuro.
Você costuma afirmar que muitos dos problemas contemporâneos têm uma origem comum. Que origem é essa?
Acredito que estamos vivendo as consequências de uma ruptura profunda: passamos a nos perceber separados da natureza. Durante muito tempo, construímos a ideia de que seres humanos estavam acima ou fora dos sistemas vivos, como se pudéssemos explorar recursos, acelerar processos e crescer indefinidamente sem consequências. Mas continuamos sendo natureza. Quando ignoramos isso, criamos sistemas que entram em conflito com os próprios princípios que sustentam a vida.
Existe alguma relação direta entre burnout, crise climática e perda de biodiversidade?
São escalas diferentes, mas vejo uma conexão importante na lógica que os produz. Em todos esses casos existe uma mesma estrutura: extração sem regeneração. Extraímos recursos dos ecossistemas sem permitir sua recuperação. Extraímos energia das pessoas sem respeitar seus limites. Extraímos valor dos territórios sem considerar sua capacidade de suporte. São manifestações distintas de uma mesma mentalidade: a de que é possível retirar indefinidamente de um sistema sem que ele eventualmente colapse.
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