
13/07/2026
O El Niño voltou ao noticiário com um adjetivo que chama atenção: “super”. A expressão parece anunciar um desastre inevitável, mas a melhor forma de lidar com ela é menos pelo susto e mais pela preparação. O fenômeno climático já está em curso e deve se fortalecer até o fim de 2026, segundo a NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. A previsão mais recente indica 81% de chance de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro e 97% de chance de persistência até o início de 2027. Se isso se confirmar, estará entre os maiores eventos registrados desde 1950.
Mas o ponto central não é decorar uma sigla meteorológica nem acompanhar o aquecimento do Pacífico como quem assiste a uma contagem regressiva. O ponto é perguntar: estamos usando essa informação para proteger pessoas, cidades, lavouras, rios, florestas e serviços públicos?
O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Parece distante, mas esse aquecimento mexe na circulação dos ventos e reorganiza padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta. É como empurrar uma peça importante de um grande tabuleiro climático: o movimento começa no oceano, mas o efeito aparece na terra firme, no regime de chuvas, nas ondas de calor, na produção de alimentos, na saúde e na rotina das cidades.
Quando se fala em “super El Niño”, é preciso fazer uma pausa. A Organização Meteorológica Mundial não usa oficialmente esse termo, porque ele não faz parte das classificações técnicas padronizadas. O nome mais adequado é El Niño “muito forte”. Em geral, essa categoria aparece quando as águas do Pacífico Equatorial ficam mais de 2°C acima da média. A diferença parece pequena para quem pensa na temperatura de uma cidade, mas no oceano, em uma área imensa, esse desvio representa muita energia acumulada.
Essa precisão importa porque palavras também são parte da adaptação climática. Se a comunicação pública só assusta, as pessoas se paralisam. Se ela minimiza, os governos atrasam respostas. O caminho mais responsável é explicar com clareza: El Niño forte não significa que todos os lugares terão os mesmos impactos, nem que cada evento extremo será causado por ele. Significa que certas probabilidades aumentam, e que a prevenção precisa começar antes da emergência.
No Brasil, os efeitos costumam variar por região. O INPE explica que o El Niño está associado, historicamente, à seca no norte e no leste da Amazônia e no norte do Nordeste, especialmente no primeiro semestre. No Sul, pode favorecer chuvas mais intensas, sobretudo na primavera. Já em parte do Sudeste e do Centro-Oeste, o fenômeno pode contribuir para temperaturas acima da média, dependendo da intensidade e da interação com outros sistemas atmosféricos.
O INMET também alertou que, no trimestre de julho a setembro de 2026, a tendência é de chuvas acima da média em áreas da Região Sul e abaixo da média no centro-norte do país. O órgão aponta ainda alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, condição que pode aumentar episódios de ondas de calor e incêndios florestais.
Na prática, isso quer dizer que o El Niño não deve ser tratado como uma notícia de meteorologia distante da vida cotidiana. Ele pode aparecer na torneira com menos água, no preço dos alimentos, na fumaça das queimadas, no aumento de doenças respiratórias, no desconforto térmico dentro de casas mal ventiladas, na perda de lavouras, na sobrecarga de hospitais, no alagamento de bairros e no risco de deslizamentos.
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