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Adaptação lenta da rede elétrica na Bahia ameaça arara-azul-de-lear, diz projeto de conservação

09/06/2026

A caatinga abriga a única população selvagem da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), espécie em perigo de extinção. Graças a um projeto de conservação iniciado em 1993, o total de aves saltou de 50 para 2.548 em três décadas, mas a rede elétrica da região impõe uma ameaça crescente aos animais.
A organização privada Fundação Biodiversitas gerencia a Estação Biológica de Canudos, no norte da Bahia, e registra 192 indivíduos mortos por choques em linhas de média e baixa tensão nos últimos anos.
Erica Pacifico, pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), estuda a conservação da espécie desde 2008 e afirma que os óbitos se tornaram mais frequentes por causa do avanço do desmatamento, fazendo com que as araras passem a buscar alimento nas áreas rurais –onde a fiação elétrica representa risco de vida para casais em idade reprodutiva e filhotes.
Segundo a especialista, seria necessário inverter a posição dos transformadores para evitar a descarga elétrica. "É uma solução muito simples, e não está sendo feito. Já faz cinco anos que existem tratativas com o Ministério Público, mas a gente não vê reação", afirma à Folha.
Luciana Khoury, promotora de Justiça Ambiental de Paulo Afonso (BA), diz que as autoridades tomaram conhecimento do caso em 2020. Investigações iniciais confirmaram que a causa dos óbitos era a eletroplessão, o nome técnico para morte por choque elétrico acidental.
Khoury afirma que o Ministério Público planeja firmar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a Neoenergia, a empresa responsável pela energia da Bahia, para definir protocolos de adaptação das estruturas já existentes e garantir que todas as novas instalações sejam construídas no padrão adequado.
"O tempo acabou sendo mais longo do que se deseja e, com isso, mais consequências para as araras", diz. De acordo com a promotora, ainda falta definir a área exata em que será necessário fazer os ajustes, e a próxima reunião deve acontecer neste mês para fechar o acordo.
A Neoenergia afirma ter modificado mais de 6.100 estruturas para evitar mortes de aves, com adaptações que incluem padrão construtivo para permitir pouso seguro, distanciamento entre as fases da fiação e reposicionamento de isoladores, para cortar o fluxo da corrente elétrica.
"Fazemos trocas constantes e contínuas nos municípios onde tem ocorrência das araras, para que elas possam ter uma interação sem risco de morte", diz Daniel Daibert, superintendente de meio ambiente e fundiário da Neoenergia.
A bióloga Tânia Maria Alves, gerente da Estação Biológica de Canudos, vê a situação de outra forma. "Infelizmente, isso ainda não foi finalizado, não está da maneira que deveria ser, e as araras continuam morrendo."
"Esse problema cresceu de 2018 para cá, e falta muito para resolver", diz o guarda-parque Guilherme Feitosa de Jesus, que também atua como assistente de pesquisa.
Erica Pacifico afirma que a distribuição de energia é importante para a população e que, por causa disso, o assunto é pouco falado. "Mas tenho clareza para dizer que a principal ameaça para a arara-azul-de-lear hoje é a eletroplessão, sem sombra de dúvidas."
Ao ser perguntada sobre os impactos de torres eólicas instaladas em Canudos, a pesquisadora diz que não há registro de mortes de aves e que um estudo com base em dados de altitude e velocidade de voo identificou baixo perigo de colisão com pás de aerogeradores.
"Não temos evidência nenhuma de que o parque eólico cause risco para as araras, enquanto a rede de energia mata bicho agressivamente", afirma a especialista.
A Folha acompanhou uma expedição à Estação Biológica de Canudos em abril e observou as aves em vida livre no início da manhã, quando deixam os ninhos, construídos exclusivamente em paredões de arenito calcário, à procura da iguaria favorita da espécie: o licuri, fruto de uma palmeira.

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