
01/06/2026
Para chegar ao Santuário Sabal Palm, um parque no sul do Texas famoso pelas aves silvestres, é preciso atravessar por uma estradinha o muro da fronteira com o México. Com pouco mais de cinco metros de altura, o muro é feito de barras de aço verticais, enfileiradas a perder de vista.
Logo do outro lado da barreira estava um veículo da patrulha de fronteira dos EUA. Dois policiais observavam quem vai e vem da reserva, à beira do rio Grande, ou rio Bravo para os mexicanos, a fronteira natural entre os países.
Apesar do muro, o parque ainda está em território americano. Como não é viável levantar cercas dentro do rio, a instalação é feita a certa distância, muitas vezes impedindo ou dificultando o acesso dos próprios moradores locais à sua margem. Os policiais proibem transeuntes de caminhar próximo ao muro, alegando usar as pegadas para rastrear imigrantes ilegais.
O Santuário Sabal Palm ocupa uma área de 225 hectares, dos quais 12 hectares são de palmeiras-sabal, algumas das últimas que sobraram no Vale do Rio Grande. No passado, as palmeiras dominavam 24 mil hectares da paisagem, irrigadas pelas cheias anuais e formando uma exuberante floresta subtropical.
Hoje, tudo virou lavoura, com exceção de um delicado e fragmentado sistema de refúgios do qual o Sabal faz parte.
Um dos passarinhos mais populares do vale, entre as mais de 400 espécies que frequentam o local ao longo do ano, é o que eles chamam em inglês de "great kiskadee". Nos EUA, ele só ocorre no sul do Texas, o que o transforma numa raridade para os norte-americanos. Já para brasileiros visitantes, avistá-lo é como reencontrar um velho conhecido —se trata do bem-te-vi, comum em todo o Brasil.
O muro que isola o santuário foi erguido entre 2007 e 2010, como parte de um corredor não contínuo de 110 km levantado no Vale do Rio Grande. Embora não seja obra de Donald Trump, é o que a administração atual pretende fazer ao longo do vale, que abriga outras áreas de conservação.
O projeto de lei apelidado de Big Beautiful Bill, aprovado em 2025, destina US$ 46,5 bilhões (R$ 233,5 bilhões, na cotação atual) para a construção do muro fronteiriço, sem salvaguardas para reservas naturais.
"Não se trata apenas de erguer um muro", disse o biólogo de conservação de aves Justin LeClaire. "O muro exige uma faixa de fiscalização de cada lado, abertura de estradas, instalação de iluminação, construção de portões. O impacto é muito maior do que parece."
Segundo a agência federal que controla as fronteiras dos EUA, o setor do Vale do Rio Grande é o mais movimentado do país, concentrand 40% das detenções de imigrantes ilegais e líder nas apreensões de drogas na fronteira sudoeste. Mas os números caíram bastante: nos últimos três meses de 2025, 5 mil pessoas foram detidas ou impedidas de entrar, contra 20 mil no mesmo período de 2024.
Uma das trilhas do Santuário Sabal Palm leva justamente às margens do rio Grande. O mesmo acontece com outros parques da região, como o Refúgio Nacional de Vida Silvestre Santa Ana, 88 km ao norte.
O rio corre tranquilo, e a margem mexicana está a uma distância de alguns metros. Não há sinais de fiscalização. O clima é bucólico e silencioso, quebrado apenas por um eventual bem-te-vi.
LeClaire, que trabalha numa ONG dedicada às baías e estuários da costa do Texas, é também um dos coordenadores do festival de observação de pássaros do Vale do Rio Grande, que atrai 600 pessoas por ano, com 150 passeios em cinco dias de evento.
Como passarinheiro dedicado, ele acorda cedo para observar aves em áreas remotas ou nos parques. Às vezes, vê o que não devia, ou é confundido com imigrante ilegal. "Vi duas vezes grupos pequenos atravessando", disse LeClaire. "Já vi também garrafas de água e mochilas largadas no meio da vegetação."
Agentes da fronteira já o abordaram diversas vezes, especialmente quando estava em estradas rurais isoladas. "Quando eles percebem meu binóculos pendurado no pescoço, já entendem."
O Vale do Rio Grande é uma pérola para os passarinheiros por ser a convergência de duas das quatro rotas migratórias de aves da América do Norte. Milhões de pássaros passam por aqui e muitos param para se abastecer por semanas antes de seguir viagem pelo continente.
Fonte: Folha de S. Paulo
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