
11/04/2023
Como seria se um leão, espécie nativa da África, vivesse solto nas florestas brasileiras? Seria possível calcular o tamanho do “impacto”? Algo semelhante acontece em rios de três países da América do Sul.
Pesquisadores e pescadores acompanham na prática os danos que o pirarucu (Arapaima gigas), predador de topo da cadeia alimentar, vem causando há pelo menos 50 anos em regiões onde ele não existia.
“Nas invasões biológicas, quando você retira a espécie de um lugar de origem e coloca em outro rio em que ela não evoluiu com outros seres, há uma certa ingenuidade da presa nativa nos primeiros anos", explica o pesquisador Jean Vitule, do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná.
Ele continua: "É que a presa não reconhece o invasor como um predador, porque evolutivamente essa espécie não existia na vida dela. É lógico, com o tempo os peixes nativos podem aprender, mas até isso acontecer o pirarucu pode extinguir localmente várias espécies de presas. Por isso, ecologicamente essas invasões são tão arriscadas”, diz.
O pirarucu também é conhecido por arapaima, ou, paiche, nome mais comum no Peru, país onde começou uma “invasão” que atravessou fronteiras.
Apesar de ser um peixe nativo da bacia Amazônica, o paiche não está presente em todos rios da Amazônia, ou, pelo menos não deveria estar.
A espécie é nativa, por exemplo, em Iquitos, capital da “Amazônia Peruana”, cidade que fica localizada nas grandes planícies da Bacia Amazônica, a leste dos Andes. Com cerca de 465 mil moradores, o município é conhecido por ser a maior localidade do mundo em número de habitantes onde não se pode chegar por terra, somente com avião, ou barco.
A dificuldade de acesso até a cidade não foi obstáculo para retirar paiches dos rios da região e transportá-los por mais de mil quilômetros até a região Sudeste do Peru. Por volta de 1975, esses peixes foram introduzidos em criadores conservacionistas localizados na cidade de Puerto Maldonado, que fica só há 55 quilômetros da fronteira com a Bolívia.
A cidade é capital do Departamento que leva o nome do rio Madre de Dios, curso d’água que se junta com o rio Madeira e se torna um afluente do rio Amazonas. “Descobrimos que os primeiros indivíduos da espécie foram trazidos intencionalmente de Iquitos e foram deliberadamente soltos nas lagoas de Sandoval e Valência. A partir desses dois pontos houve uma expansão constante da espécie em direção ao rio Madre de Dios”, explica o pesquisador boliviano, Guido Miranda, da Wildlife Conservation Society, WCS. A instituição de conservação e investigação da biodiversidade estuda há décadas um dos maiores casos de introdução de “peixes exóticos” na América do Sul.
Não se sabe muito bem ao certo de que forma os paiches foram parar em ambiente natural, mas relatos dão conta que por volta de 1976, em Puerto Maldonado, houve escapes de criadores conservacionistas. “Devido à dinâmica dos rios, os paiches se dispersaram ao longo do rio Madre de Dios, invadindo córregos e lagos bolivianos”, explica Miranda.
A matéria na íntegra pode ser lida no g1
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