
26/05/2022
A mata atlântica, o bioma brasileiro mais devastado, está vivendo um momento que parecia que não iria se repetir em sua história: um grande crescimento do desmatamento.
A destruição na mata atlântica saltou 66% em 2020-2021, em comparação ao período anterior (2020-2019). É o maior aumento percentual registrado desde o início do monitoramento, em 1985 (até 2010 os dados eram divulgados e englobavam um período de cinco anos).
No período de 2020-2021, foram derrubados 21.642 hectares do bioma, que mantém somente pouco mais de 12% de sua cobertura original. É o maior valor desde 2015/2016, quando era de 29.075 hectares.
Os dados são de relatório da ONG SOS Mata Atlântica e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) lançado na noite de terça-feira (24).
"Estamos andando para trás", afirma Luis Fernando Guedes Pinto, diretor de conhecimento da SOS Mata Atlântica e coordenador do Atlas Mata Atlântica, o projeto que anualmente levanta as áreas desmatadas no bioma.
Na última semana, em um sobrevoo por áreas de Minas Gerais que tinham registros de desmate no ano passado, a equipe da SOS Mata Atlântica flagrou novas derrubadas em curso —que, pela questão da data, não entram nos dados citados na reportagem.
"Imagens horríveis. Aquelas imagens da Amazônia. A gente tem que lembrar que estamos falando da mata atlântica, de uma região mais rica, com maior governança. Deveríamos estar falando exclusivamente de restauração e estamos falando de coisas desse nível [desmatamento]. É uma reversão total de agenda", diz Guedes Pinto.
Os resultados são vistos como surpreendentes e preocupantes. Ao todo, 15 estados apresentam alta de desmatamento —somente 2 tiveram redução.
Apesar do crescimento generalizado, três estados concentram mais de 80% da destruição registrada. Minas Gerais, líder de desmate, levou ao chão 9.209 hectares de floresta. Em segundo lugar, a Bahia derrubou 4.968 hectares. O Paraná fecha a lista com 3.299 hectares derrubados. Todos eles tiveram aumentos de destruição superiores a 50% em relação ao período anterior. Em Minas, o salto chegou a 96%.
Até mesmo estados que se aproximavam de desmatamento zero (quando os dados não passam de 100 hectares no ano) apresentaram crescimento na destruição, caso de São Paulo, Sergipe e Rio de Janeiro. O estado fluminense, por exemplo, antes estava abaixo dos 100 hectares, mas agora teve um aumento de 95% na supressão de matas.
A única explicação para um aumento generalizado como esse, segundo Guedes Pinto, seria uma visão antiambiental que se espalhou pelo país.
"São praticamente quatro anos de uma cultura de antifloresta, de negacionismo da ciência e de desmonte da política ambiental. E uma expectativa de impunidade, de ataque à legislação ambiental no Congresso e de atos administrativos do governo federal", afirma o especialista. "Até atacaram a Lei da Mata Atlântica. Não podemos esquecer do despacho do [Ricardo] Salles."
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