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Fiocruz: desaceleração nos casos de síndromes respiratórias no Rio pode ter ocorrido por causa de isolamento social

02/04/2020

O isolamento social de parte da população do Rio por causa do coronavírus pode estar tendo os primeiros resultados. É o que aponta uma pesquisa da Fiocruz que mostra uma desaceleração no número de casos da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no estado, possivelmente já como reflexo das medidas restritivas de circulação nas últimas semanas. Há 15 dias, houve uma explosão de 300 registros de SRAG, de 15 a 21 de março, 10 vezes maior do que no mesmo período do ano passado. Na semana passada, pesquisadores da fundação perceberam um ritmo mais lento no Rio. De 22 a 28, a quantidade de internações quase que se manteve (322).
Há duas semanas, a luz vermelha se acendeu. Houve um salto de 132 para 300 casos. Problemas no sistema respiratório são um dos principais sintomas da Covid-19.
O estudo consta no sistema InfoGripe, desenvolvido pela Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde, que monitora os casos SRAG não só no Rio, como nos 26 estados do país, além do Distrito Federal. O pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da fundação, Marcelo Ferreira da Costa Gomes, que coordena o InfoGripe, explicou que a pesquisa, concluída na madrugada de ontem (quarta-feira), revela a desaceleração da curva, o que pode ser uma consequência do isolamento:
– Não dá para afirmar 100% que o isolamento tem relação direta com essa redução da aceleração da curva, mas é bem razoável apontá-lo como um dos principais fatores. Temos que ser cautelosos. Outra hipótese é a de que os hospitais ainda não tenham registrado as internações no sistema. Quando começamos a analisar a explosão de casos, nas semanas 11 e 12 (de 8 a 14 e de 15 a 21 de março), nos chamou a atenção que, além do aumento abrupto, havia muitos idosos sendo acometidos de problemas respiratórios. Nas curvas de anos anteriores, observávamos que as crianças com menos de 2 anos representavam a maioria dos casos – ressaltou Gomes. – Foram estes dois fatores que nos deram o alerta. Só na semana 12 que o Ministério da Saúde estabeleceu como protocolo considerarmos a possibilidade desses casos serem suspeitos do novo coronavírus. É óbvio que nem todos são da Covid-19, mas o aumento é substancial.
O pesquisador da Fiocruz não tem dúvidas de que a taxa de subnotificação (casos não informados) é alta, chegando de 85% a 90%. Segundo ele, são várias as situações que contribuem para isso. Gomes lista três fatores como os mais relevantes: a demora no registro de dados pelas unidades de saúde; os doentes leves que param na rede ambulatorial e não são computados no sistema; e os óbitos daqueles sem atendimento hospitalar. No primeiro caso, há hospitais que registram, manualmente, as informações em fichas para depois inseri-las no sistema informatizado. Os dados, muitas vezes, só chegam nas semanas seguintes.
Por último, as pessoas que morreram sem atendimento em unidades de saúde e a causa mortis foi decorrente de problemas respiratórios, com suspeita da Covid-19, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda a necropsia. Segundo o pesquisador, a OMS entende que haveria riscos de infectar os legistas, provocando um dano muito maior à saúde pública.
Gomes também aponta que a demora na chegada dos kits, as falhas na coleta das amostras e a lentidão nos resultados prejudicam os pesquisadores a chegar ao número real de casos da Covid-19. Ele é um dos que defendem o isolamento social para que não haja uma explosão da doença e, consequentemente, o colapso da rede pública e privada de saúde.
O InfoGripe foi criado para ajudar os governos, e como uma resposta à pandemia de influenza H1N1, em 2009. A partir daí, houve uma evolução para o estudo da gripe e outras infecções respiratórias. Todos que dão entrada na rede pública e privada de saúde com sintomas de falta de ar, dor na garganta e tosse são registrados no sistema. Com a disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2), todos estes casos passaram a ser vistos como suspeitos da doença. O objetivo é justamente ajudar os governos e gestores de saúde no planejamento de ações para conter a transmissão.

Fonte: O Globo

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