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O prof. de Biologia Ney Mello conta como faz da natureza a estrela do programa ‘Rádio animal’

08/02/2018

Certo dia, diante de uma turma inquieta e não muito atenta, preocupada com os nomes em latim de espécies animais, o professor de Biologia e Ciências Ney Mello teve a ideia de convocar “bichos artistas” para tornar as aulas mais atraentes. Entraram em sala então a mosca da Beyoncé, o besouro exterminador do futuro e a vespa da Shakira, entre outros bichos. O tempero pop mudou o rumo do aprendizado e facilitou a rotina do professor, que segue a cartilha de unir ensinamento com entretenimento. Um dos desdobramentos desse caminho está no ar todas as segundas-feiras, às 19h45m, na 94FM (antiga Rádio Roquette-Pinto), onde ele há quatro anos apresenta o programa “Rádio animal”, com dez minutos de duração.
— Trabalho com séries temáticas. Saio um pouco daquela história de sustentabilidade, tipo “abrace uma árvore e beije um bichinho”. Pego histórias e tento contextualizar. Já fiz mais de 40 séries diferentes, divididas em capítulos. A mais recente, chamada “Ponte aérea”, foi a mais desafiadora, pois conta histórias de animais de diferentes lugares do mundo, escolhidos aleatoriamente uma semana antes por âncoras da rádio ou ouvintes — conta o professor do ensino médio no CAp-Uerj, pós-graduado em Ciências e com mestrado em Biologia na Uerj, onde dá aulas de biomimética.
Assim, atendendo a pedidos, ele, sem usar bisturis, dissecou no ar bichos de 18 cidades, entre elas Alasca (EUA), Pyongyang (Coreia do Norte), Bagdá (Iraque), Irkutsk (Rússia) e Havana (Cuba), de onde ele contou a história das lagartas-do-tabaco (Manduca sexta), que se alimentam da matéria-prima dos apreciados charutos cubanos e chegam a consumir seis vezes mais nicotina do que a dose letal para um ser humano.
— Um gene faz a nicotina passear pelo corpo dela, e o resto é expelido através da pele. Isso afasta predadores como a aranha-lobo. Mas há cinco anos criaram um tratamento para as plantas que faz com que elas desativem esse gene. Assim, as lagartas não conseguem mais usar a nicotina para afastar seus inimigos, fica exposta e é caçada — detalha, destacando que o programa é uma forma de trazer a vida animal para o cotidiano.
O biólogo afirma que costuma utilizar capítulos do seu programa de rádio em aulas na CAp-Uerj, pois os episódios são transdisciplinares, pois envolvem diferentes áreas do saber, como física, artes, geografia, história, matemática, química e literatura:
— Uso o contexto para unir conteúdos. A partir dos falcões do Iraque, por exemplo, peço para o aluno amarrar conceitos com outras disciplinas. Então, ele fala sobre aerodinâmica, passagem de vento, força de atrito; ou seja, física.
O storytelling — contar uma história — é a principal estratégia usada por ele para instigar a curiosidade científica dos alunos, de qualquer idade. O professor conta que as turmas adoram ouvir casos reais, principalmente aqueles que parecem inventados. As histórias vão do tatu à prova de balas às formigas alemães que tocavam a campainha de uma casa e aos alces bêbados na Suécia:
— Eles ficam bêbados comendo frutas que caíram no chão. Elas fermentam e produzem álcool, que deixa os animais tão embriagados que se prendem entre árvores sozinhos ou caem aparentemtene sem motivos.
Mello acredita que essa é a melhor maneira de ensinar Biologia aos jovens.
— A Biologia tem muitos termos diferentes e complicados. Decoreba é uma coisa chata, e faço de tudo para que o aluno não aprenda dessa maneira. O conteúdo puro e jogado não vai atrair a atenção de ninguém, e vai ser esquecido depois da prova. Então eu conto uma história para os alunos. A curiosidade aumenta, e até aqueles desinteressados que dormiam no fundo da sala se animam — garante.

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