
29/10/2026
Os impactos das mudanças climáticas na saúde estão aumentando mais rapidamente do que há uma década, apesar dos compromissos internacionais para conter o aquecimento global.
O alerta é de um relatório publicado nesta última terça-feira (27) pela prestigiada revista científica "The Lancet", que aponta uma aceleração das mortes relacionadas ao calor, da exposição a secas extremas e dos problemas de saúde provocados pelas mudanças no clima.
Segundo o levantamento, o calor esteve associado a aproximadamente 710 mil mortes em todo o mundo em 2023, o maior número estimado para um único ano no período analisado.
Dessas mortes, 71,5% foram atribuídas às mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas.
Diante dos resultados, os pesquisadores defendem que a crise climática seja formalmente reconhecida e tratada como uma emergência sanitária global, para que seus efeitos sobre a saúde tenham prioridade nas decisões dos governos.
A avaliação faz parte da edição de 2026 do Lancet Countdown, uma iniciativa científica internacional que acompanha, todos os anos, como as mudanças climáticas afetam a saúde da população e o que os países estão fazendo para enfrentar esses impactos.
O trabalho reúne 146 pesquisadores de mais de 100 instituições em mais de 30 países, sob coordenação da University College London (UCL), em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo compara a década posterior à entrada em vigor do Acordo de Paris, de 2016 a 2025, com os dez anos anteriores, de 2006 a 2015.
A conclusão é que diversos danos à saúde se intensificaram em um ritmo superior ao observado antes do acordo, firmado para limitar o aquecimento global e reduzir os riscos associados às mudanças climáticas.
"Uma década após o Acordo de Paris, nossas conclusões são inequívocas: os danos das mudanças climáticas à saúde estão crescendo mais rapidamente do que a resposta mundial a eles e, em muitos casos, estão até se acelerando", afirmou Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown.
Segundo ela, houve avanços na expansão das energias renováveis e na preparação dos sistemas de saúde, mas essas iniciativas ainda não são suficientes para compensar o agravamento dos impactos climáticos.
O relatório estima que o calor esteve associado a uma média de 540,8 mil mortes por ano entre 2016 e 2023, um aumento de quase 36% em relação à média anual da década anterior.
Desse total, cerca de 369,9 mil mortes anuais foram atribuídas ao aquecimento provocado pelo ser humano.
Em 2023, o número de mortes associadas ao calor chegou a 710 mil, superando as estimativas de mortes causadas individualmente pela malária e pelo HIV naquele ano.
🌡️ ENTENDA: As mortes associadas ao calor incluem casos em que as temperaturas elevadas contribuem para agravar doenças cardiovasculares, respiratórias e outras condições de saúde. Por isso, o número não corresponde apenas aos óbitos classificados diretamente como consequência de uma onda de calor.
Para Christovam Barcellos, pesquisador sanitarista do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que não participou do estudo, os resultados são compatíveis com os impactos das mudanças climáticas observados no Brasil.
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