
08/10/2026
Cerca de 75% das áreas das florestas tropicais do mundo enfrentaram pelo menos seis meses de seca e calor simultâneos sem precedentes durante o El Niño de 2023-2024. Mais do que um retrato de um evento extremo, o cenário é uma prévia do "novo normal" nas próximas duas décadas se não houver redução das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com um estudo publicado nesta quarta-feira (7) na revista Earth’s Future.
O alerta máximo recai sobre a Amazônia, identificada como a região mais vulnerável a esse novo padrão climático. Caso as emissões globais de gases de efeito estufa continuem crescendo, a probabilidade de o bioma sofrer secas com a mesma severidade do último biênio aumentará em até nove vezes até o fim do século –mesmo em anos sem a influência do El Niño.
Sob um estresse térmico dessa magnitude, as florestas tropicais entram em colapso funcional. Segundo os pesquisadores, em vez de absorverem os gases que aquecem o planeta (agindo como sumidouros), essas áreas passam, temporariamente, a emitir carbono para a atmosfera. Diante desse ciclo vicioso, o estudo reforça a urgência de cortes rápidos e contínuos nas emissões globais.
A necessidade de mitigação torna-se ainda mais imediata diante da iminência do El Niño 2026-2027. Seus efeitos já podem ser sentidos na América do Sul e as previsões indicam que deverá atingir a categoria "muito forte" (classificação máxima) até o início do verão. Turbinado pela crise climática, o fenômeno caminha para ser o mais intenso já registrado.
No geral, a pesquisa apontou que as temperaturas médias em patamares altos devem se tornar pelo menos seis vezes mais prováveis em todas as regiões tropicais, mesmo no cenário de emissões globais mais baixas. Isso pressupõe que, por volta de 2075, o mundo passe a retirar da atmosfera uma quantidade de carbono equivalente à que emitirá, condição conhecida como emissão líquida zero de CO₂.
"Durante o El Niño de 2023-2024, a área e a duração dos eventos de seca e de ondas de calor foram as maiores e mais extensas dos últimos 25 anos. Quando usamos os mesmos modelos para o futuro, podemos ver que a temperatura está aumentando. Estamos preocupados porque agora pode ser ainda pior, infelizmente", diz à Agência Fapesp a autora correspondente do artigo, Johanna Van Passel, cientista da Universidade Ghent (Bélgica) e pesquisadora visitante no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical, especialmente entre a costa da América do Sul e a região central do oceano. A grande quantidade de calor acumulada no mar modifica a circulação atmosférica, favorece a elevação das temperaturas globais e altera as chuvas em diferentes partes do planeta. No Brasil, favorece chuvas acima da média no Sul, reduz as precipitações em partes do Norte e do Nordeste e eleva as temperaturas em vários Estados do país.
Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram dados de satélite e observacionais, além de projeções de 24 modelos climáticos para quatro cenários de emissões em contextos passado (2000-2024) e futuro (até 2100). Usaram ainda uma abordagem baseada em anomalias, que considera o clima de referência de cada região, para definir os eventos extremos. Com isso, foi possível abordar as adaptações a condições climáticas distintas das florestas tropicais em diferentes continentes, classificando um evento como extremo em comparação com o que normalmente ocorre em cada localidade.
O biólogo Peter Groenendijk, professor no IB-Unicamp e coautor da pesquisa, destaca que uma das inovações do trabalho foi comparar seca e calor em um único evento de El Niño com cenários climáticos futuros, encontrando um "novo normal". Para ele, o uso de múltiplos modelos deu robustez aos resultados.
Especialista em dendroecologia (o ramo da ciência que usa anéis de crescimento das árvores para estudar e reconstruir processos ecológicos), Groenendijk salienta a importância dos achados também para a compreensão do ecossistema.
"O El Niño é um dos grandes moduladores do clima global. Ao procurarmos entender seus impactos, podemos ter diversos outros desdobramentos para as florestas, como compreender mecanismos que levam à mortalidade das árvores", afirma o biólogo, que recebeu financiamento da Fapesp por meio de um Auxílio à Pesquisa Jovem Pesquisador.
Nesse sentido, Van Passel ressalta que os achados vão contribuir para a sua linha de pesquisa, que busca entender o efeito do calor e das secas extremas no crescimento e na mortalidade das árvores, especialmente na Amazônia.
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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