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Escorpiões que brilham sob luz ultravioleta levam cientistas a duas novas espécies em Roraima

01/10/2026

Imagine caminhar pela floresta durante a noite, iluminando pedras e vegetação com uma lanterna ultravioleta. De repente, pequenos animais começam a brilhar diante dos seus olhos.
Foi durante essas buscas que nós pesquisadores do Laboratório de Imunologia e Toxinologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) encontramos duas espécies de escorpiões desconhecidas pela Ciência. Os animais vivem na base de um inselberg, uma elevação rochosa isolada.
O local fica na região da Cachoeira do Evandro, em Mucajaí, Roraima. As espécies foram nomeadas Cayooca puchus e Brotheas cernii.
A descrição científica foi publicada em 6 de junho de 2026, na revista Diversity e também noticiada recentemente pelo portal G1/Roraima.
Nós acompanhamos expedições e coletas realizadas na região ao longo de vários anos. O trabalho reuniu exemplares de diferentes idades e sexos.
Em outubro de 2022, utilizamos lanternas ultravioleta para localizar escorpiões durante a noite. Essa técnica funciona porque o corpo dos escorpiões fluoresce sob luz ultravioleta.
Nós comparamos os exemplares com espécies conhecidas e analisamos diferentes características morfológicas. Observamos tamanho, coloração, granulação corporal e estruturas usadas na identificação taxonômica.
Especialistas de diferentes instituições avaliaram essas características e revisaram a identificação das espécies. Participaram pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Instituto Butantan e Universidade Nacional Autônoma do México.
As análises morfológicas permitiram distinguir os exemplares de espécies próximas já conhecidas. Esse conjunto de evidências sustentou a descrição das duas espécies como novas para a ciência.
As duas espécies pertencem à família Chactidae, encontrada principalmente nas Américas. Essa família reúne escorpiões com grande diversidade morfológica e distribuição predominantemente neotropical.
No Brasil, Chactidae ocorre principalmente na Amazônia e inclui gêneros como Brotheas e Cayooca. A família também apresenta grande diversidade de formas e características corporais.
Cayooca puchus mede entre 3,2 e 5,1 centímetros. O gênero Cayooca possui apenas duas espécies reconhecidas atualmente.
Cayooca puchus se diferencia por sua granulação corporal mais densa e carenas ventrais marcadas. Carenas são linhas ou cristas elevadas na superfície do corpo dos escorpiões.
Nós escolhemos o nome puchus para registrar a reação de surpresa diante da descoberta. O termo vem de pucheros, expressão espanhola associada a uma expressão de espanto.
Brotheas cernii mede entre 4,5 e 5,7 centímetros. A espécie apresenta corpo menor e granulação mais intensa que espécies próximas.
O nome cernii homenageia o biólogo Felipe Augusto Cerni e sua família. A escolha também registra sua contribuição aos estudos sobre venenos de escorpiões.
Até o momento, as duas espécies foram encontradas apenas na base desse inselberg. Isso não significa que estejam restritas à área. Novas expedições poderão revelar outras populações ainda não amostradas.
Nossa equipe sugere que o próprio ambiente pode ajudar a explicar esse padrão. O inselberg forma uma paisagem rochosa isolada dentro da floresta. Esse isolamento pode limitar a dispersão e favorecer diferenças entre populações ao longo do tempo.
Em ambientes isolados, populações podem apresentar menor fluxo gênico entre si. Com o tempo, diferenças genéticas podem se acumular. Esse processo pode favorecer barreiras reprodutivas e contribuir para o surgimento de novas espécies.

Termine de ler esta reportagem clicando no g1

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