
01/10/2026
Se você passar um dia andando por Tóquio, é possível que acabe carregando um copo de café vazio, a embalagem de um sanduíche de ovo da 7-Eleven e uma crescente sensação de perplexidade. O Japão é famoso pela limpeza, mas por que é tão difícil encontrar onde jogar o lixo?
É uma frustração que já rendeu inúmeros vídeos nas redes sociais de turistas perplexos percorrendo as ruas impecáveis em busca de uma lixeira. No entanto, a resposta é mais complexa do que pode parecer à primeira vista.
"É uma mistura complexa de acontecimentos históricos... fenômenos econômicos, eventos políticos e seus diversos efeitos sobre como as pessoas decidem agir", afirma Eiko Maruko Siniawer, professora de história no Williams College e autora de Waste: Consuming Postwar Japan ("Resíduos: o consumo no Japão do pós-guerra", em tradução livre).
O Japão nem sempre foi um país sem lixeiras. Siniawer aponta março de 1995 como um ponto de virada fundamental na cultura das lixeiras no país: foi quando membros da seita Aum Shinrikyō liberaram gás sarin em três linhas do metrô da capital japonesa durante o horário de pico da manhã, matando 14 pessoas e deixando milhares de feridos.
Após o ataque, as autoridades fecharam ou retiraram as lixeiras como medida de prevenção.
Os ataques terroristas posteriores em todo o mundo, incluindo os de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, contribuíram para que essas medidas fossem mantidas.
Ainda assim, três décadas depois, a segurança por si só não explica por que tão poucas lixeiras voltaram, nem por que o Japão continua notavelmente livre de lixo.
O custo e a praticidade são parte da resposta. Desde os anos 2000, alguns municípios reduziram deliberadamente as lixeiras nas vias públicas —explica Aya Yoshida, do Instituto Nacional de Estudos Ambientais do Japão— para incentivar as pessoas a levar o lixo para casa.
"Em Kyoto, por exemplo, o número de lixeiras nas ruas foi reduzido a menos da metade (...) a partir de 2011, depois que problemas como o descarte de lixo doméstico nelas e o acúmulo de resíduos ao redor aumentaram os custos de manutenção e gestão", acrescenta Yoshida.
Então, por que não há mais lixo nas ruas? Yoshida adverte que não se deve atribuir a limpeza do Japão a um senso de ordem exclusivamente japonês. As ruas limpas também são resultado de anos de políticas deliberadas, ressalta ela.
"Durante décadas, os municípios investiram em campanhas contra o descarte irregular de lixo, educação pública, limpeza das ruas e medidas de design ambiental destinadas a desestimular as pessoas a jogar lixo no chão", afirma.
Mas as normas sociais também influenciam, observa ela. Uma delas é o meiwaku o kakenai: a ideia de evitar causar incômodo aos outros.
Os hábitos cotidianos também têm um papel importante: comer em movimento é relativamente incomum, então as pessoas tendem a gerar menos lixo quando estão fora de casa.
Os visitantes, é claro, vivenciam a cidade de outra forma.
Eles passam longas jornadas fazendo turismo, comprando bebidas e lanches em lojas de conveniência, e é muito mais provável que acabem carregando lixo sem um lugar óbvio para descartá-lo.
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