
24/09/2026
A Rio Ocean Week 2026 encerrou no último fim de semana sua segunda edição no Rio de Janeiro, depois de quatro dias dedicados a discutir a relação da sociedade com o oceano. Realizado entre 17 e 20 de setembro, no Museu do Amanhã e no Complexo Cultural da Marinha, o evento reuniu em torno de 70 palestrantes e representantes de mais de 30 instituições ligadas à conservação dos mares e à pesquisa. Sob o tema “Poluição marinha: diagnósticos e soluções”, a programação procurou aproximar diferentes áreas e mostrar que compreender a contaminação dos oceanos passa também por observar o que acontece nas cidades e nos territórios antes de um resíduo chegar ao mar.
A discussão parte de um problema que pode assumir formas muito diferentes. Há materiais facilmente identificáveis, como embalagens, garrafas e outros resíduos plásticos, mas também contaminantes que chegam à água por caminhos menos evidentes. Microplásticos, substâncias provenientes de medicamentos, agrotóxicos e fertilizantes, resíduos de pneus e produtos de higiene e limpeza fazem parte de uma cadeia que conecta hábitos cotidianos, infraestrutura urbana e qualidade dos ambientes aquáticos. Por isso, falar em poluição marinha significa olhar não apenas para o que está na praia ou no oceano, mas também para as fontes e os trajetos que levam esses materiais até eles.
É nesse ponto que uma ação aparentemente simples, como uma limpeza de praia ou de rio, pode produzir informações sobre o problema. No Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias, celebrado em 19 de setembro, a retirada de resíduos dos ambientes aquáticos ganhou uma dimensão que vai além da quantidade de lixo recolhida. Identificar os materiais encontrados e perceber quais aparecem com maior frequência ajuda a formular perguntas sobre sua procedência e sobre as circunstâncias que permitiram que chegassem à natureza. Bitucas de cigarro, embalagens e diferentes tipos de plástico, por exemplo, podem revelar padrões de descarte e indicar onde é necessário concentrar esforços de prevenção.
Essa é a lógica do programa “Entenda o Lixo”, desenvolvido pela Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, da qual Alexander Turra é responsável. Em vez de considerar o resíduo apenas como algo a ser retirado, a iniciativa propõe transformá-lo em objeto de investigação e aprendizado, aproximando a população da produção de conhecimento sobre a poluição. A discussão esteve presente na Rio Ocean Week, que também abriu espaço para atividades educativas, exposições, documentários e visitas a navios oceanográficos.
A busca por soluções esteve relacionada ainda a uma visão mais ampla sobre o futuro das áreas costeiras e marinhas. Ao longo da programação, questões ligadas à Economia Azul, à pesca, ao turismo, às comunidades tradicionais, à restauração de manguezais e ao desenvolvimento de tecnologias foram colocadas em diálogo com a conservação ambiental. A diversidade de participantes foi parte da proposta do encontro, que reuniu pesquisadores, educadores, artistas e outros setores interessados na relação com o oceano. Para Turra, um dos coordenadores da Rio Ocean Week, essa aproximação é necessária para que a sociedade deixe de enxergar os problemas do mar como algo distante: “A gente está aqui com uma perspectiva de trazer a possibilidade de diálogos complementares, diálogos diversificados entre as pessoas e o oceano, permitindo com que a gente entenda os problemas que o oceano tem pra gente se entender como parte dessa solução.”Para o pesquisador, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e responsável pela Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, compreender os problemas é apenas uma etapa. A transformação depende da capacidade de decisões e investimentos acompanharem a urgência apontada pela ciência e pela sociedade. “A maior urgência que o oceano enfrenta é a nossa capacidade de agir. Pra gente agir, a gente precisa tomar decisões e a gente precisa ter investimentos. Essa desconexão daquela urgência que a gente tem enquanto sociedade, enquanto cientistas, enquanto pessoas, desta urgência é o que está fazendo a implementação das soluções seja atrasada e com isso a gente não está vendo a melhora que poderia ver nesse ambiente. O que temos que fazer é mobilizar a todos, incluindo os tomadores de decisão e, principalmente, os organismos que estão por trás de todo esse potencial de financiamento da transição que a gente precisa colocar em prática. Sem isso, a gente não vai conseguir sair do lugar.”
Fonte: CicloVivo
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