
11/08/2026
Centenas de funcionários de hotéis mexicanos, operadores de tratores e militares especializados da Marinha vão às praias todos os dias ao amanhecer para retirar das praias paradisíacas do Caribe volumes recordes de sargaço, uma alga flutuante.
O fenômeno sazonal vem piorando de forma acelerada nos últimos anos e levou hotéis a reduzir tarifas e investir milhões de dólares para remover das areias os montes de algas —que ficam malcheirosas quando entram em decomposição—, enquanto governos e empresas buscam soluções.
O sargaço forma grandes tapetes flutuantes na superfície do oceano. Historicamente, sua presença era restrita ao chamado mar dos Sargaços, no Atlântico Norte. Por volta de 2010, porém, ventos excepcionalmente fortes o levaram para águas tropicais ricas em nutrientes na costa da África Ocidental, onde encontrou condições ideais para se desenvolver.
Ali, o sargaço se transformou em um cinturão que segue as correntes oceânicas até o norte do Brasil e atravessa o Caribe, levando grandes volumes da alga a países insulares caribenhos, à popular Riviera Maya e ao Golfo do México.
No Atlântico tropical, o sargaço se beneficia dos nutrientes trazidos por grandes rios, como o Amazonas, o Orinoco e o Congo, além daqueles provenientes da ressurgência de águas profundas, da poeira do Saara e das águas mais quentes.
O Laboratório de Oceanografia Óptica da Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos, prevê que 2026 será pelo menos o segundo ano com maior abundância de sargaço, com a possibilidade de mais algas se acumularem no Caribe e no sudeste da Flórida nos próximos meses.
Brian Barnes, integrante do laboratório, explica que o caráter recente e sazonal do fenômeno dificulta prever sua evolução futura.
"Antes de 2010, não havia nada. Desde então, passamos de até 1 milhão de toneladas em toda a região, em 2011, para 40 milhões no ano passado", afirmou, sugerindo que a massa de algas pode estar dobrando a cada cinco anos.
No México, as autoridades tentam proteger importantes destinos turísticos ao longo da Riviera Maya —entre eles Cancún, Tulum e Playa del Carmen— por meio da compra de mais barcos para recolher o sargaço e da instalação de grandes barreiras flutuantes ao largo da costa.
O país, que recolhe a quase todo o volume do sargaço depois que ele chega às praias, retirou cerca de 96 mil toneladas neste ano, ante 92 mil toneladas no ano passado, segundo dados do governo.
"A experiência nos ensinou que a melhor maneira de enfrentar o sargaço é interceptá-lo no mar antes que chegue ao nosso litoral", disse Mara Lezama, governadora do estado de Quintana Roo, no sul do país.
Autoridades federais mexicanas esperam que uma nova embarcação para a coleta de sargaço em alto-mar chegue em um mês. Também buscam adquirir mais navios do Japão e fornecer embarcações menores, fabricadas no México, à República Dominicana.
Ao se decompor, as algas liberam metano, um poderoso gás de efeito estufa. Assim, algumas empresas tentaram obter créditos de carbono enviando barcos para formar fardos de sargaço e depois afundá-los no leito marinho.
A prática, no entanto, levantou preocupações sobre possíveis abusos, além de impactos nos ecossistemas de águas profundas e da coleta excessiva das concentrações de algas em alto-mar.
"É preciso encontrar um equilíbrio, porque o sargaço em alto-mar é um habitat natural, onde vivem inúmeras tartarugas e peixes", disse Barnes. "Portanto, se você tentar varrer todo o sargaço do Caribe, causará muitos danos colaterais."
O mar de Sargaços, por exemplo, é considerado um ecossistema sensível, que abriga espécies em extinção e do qual dependem comunidades pesqueiras do Caribe.
Barnes conta que muitas empresas entraram em contato com ele buscando orientação sobre projetos de créditos de carbono, mas disse não estar convencido de que esses produziriam resultados positivos.
A superabundância de sargaço inspirou diversos empreendedores a tentar transformar as algas em novas fontes de energia ou em produtos lucrativos, superando desafios como a remoção segura de metais tóxicos absorvidos por elas.
A ministra do Meio Ambiente mexicana, Alicia Barcena, afirmou que, entre cerca de 200 projetos no país, ao menos 11 tinham potencial para ganhar escala industrial e 39 já fabricavam produtos, que vão de combustíveis, fertilizantes, laminados e bioplásticos a sandálias artesanais.
Felix Navarrete, executivo da refinadora de sargaço Carbonwave, disse que sua empresa já vendia fertilizante feito a partir da alga no exterior e que, após receber a aprovação do órgão de vigilância sanitária do México, agora pretendia vender o produto a agricultores do país.
A Carbonwave também busca fornecer materiais aos setores de cosméticos e têxteis. Enquanto isso, o governo de Quintana Roo planeja ampliar uma usina de biocombustíveis em Cancún usando a biomassa proveniente do sargaço.
O México deverá sediar, no início de outubro, em Cancún, uma conferência conjunta da União Europeia e do Caribe sobre o sargaço, na qual representantes discutirão como ampliar a coleta das algas e, ao mesmo tempo, proteger praias e recifes de coral.
Fonte: Folha de S. Paulo
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