
16/07/2026
Stavros Moraitis passou mais de três décadas pescando nas águas azuis ao redor da ilha grega de Milos. Ele está acostumado à competição com as focas-monge, mas agora o aquecimento global trouxe um rival com um apetite muito mais voraz: o baiacu-de-bochechas-prateadas (Lagocephalus sceleratus).
À medida que os mares esquentaram, o peixe migrou das águas tropicais do Oceano Índico para o Mediterrâneo através do Canal de Suez. Armado com dentes capazes de cortar latas de aço e um corpo contendo uma neurotoxina 1.000 vezes mais potente que o cianeto, ele tem poucos predadores naturais.
A espécie invasora apareceu pela primeira vez em águas gregas em 2005, mas os números explodiram nos últimos anos. Adaptável e faminto, o baiacu está devastando uma indústria pesqueira que é o coração econômico de muitas comunidades costeiras.
"Ele é voraz e nossas capturas agora caíram em média de 30% a 40% em comparação com apenas alguns anos atrás", disse Moraitis, que seguiu os passos de seu pai, pescando dourada, garoupa e lula ao redor de Milos e das ilhas vizinhas das Cíclades, Kimolos e Polyaigos.
Com a segunda maior frota pesqueira da União Europeia em jogo, Atenas foi forçada a agir. Em uma fase piloto, o governo está oferecendo uma recompensa de 1,5 milhão de euros (R$ 8,8 milhão) para incentivar a captura do peixe. Eles receberão 5,33 euros por cada quilo pescado, de acordo com o ministro grego do Desenvolvimento Rural e Alimentação, Margaritis Schinas.
É a primeira resposta da Grécia à ameaça de uma espécie invasora induzida pelas mudanças climáticas, com a biodiversidade marinha e os meios de subsistência de quase 16 mil pescadores em jogo. O baiacu come tanto os indivíduos adultos quanto os jovens de outras espécies e compete por alimento, colocando pressão adicional sobre ecossistemas marinhos já sobrecarregados pelo aquecimento das águas.
As temperaturas médias da água no Mediterrâneo estão mais de 3°C acima da média histórica, mostram dados do Sistema de Observação e Previsão Costeira das Ilhas Baleares. Em junho, a temperatura média da superfície do mar global chegou a 20,86°C —a mais alta já registrada para a época do ano, turbinada por um El Niño em desenvolvimento, de acordo com o observarório climático Copernicus.
O aquecimento global está estimulando uma série de invasões marinhas. Apesar de seus espinhos venenosos, o peixe-leão do Indo-Pacífico tornou-se uma iguaria nos cardápios de Chipre e também se espalhou para águas gregas. No ano passado, a Inglaterra teve capturas abundantes de polvo à medida que o Atlântico Norte aqueceu, mas isso veio às custas das populações de moluscos das quais eles se alimentam. O aquecimento também está afetando o plâncton, a base das cadeias alimentares marinhas.
À medida que os números de baiacus aumentam, a Grécia concentrará seu abate piloto em Creta e no sul do mar Egeu, onde a invasão é mais aguda. Os pescadores enfrentarão uma espécie cujos quatro dentes —fundidos para formar uma estrutura semelhante a um bico— podem partir redes de pesca comuns.
Essa mordida poderosa alimentou um frenesi nas redes sociais na Grécia neste verão, com relatos de baiacus supostamente atacando banhistas. Felizmente para um país onde o turismo é a maior indústria, a realidade é muito menos dramática: houve apenas um ataque registrado, e foi há quatro anos, em Creta, de acordo com o Centro Helênico de Pesquisa Marinha.
A reputação do baiacu foi agravada por sua toxicidade, que pode causar fraqueza muscular, paralisia e dificuldades respiratórias que podem se tornar fatais se for consumido. Embora o peixe seja considerado uma iguaria no Japão, onde é preparado por chefs especializados, o consumo é proibido na Europa.
Os banhistas não devem se preocupar excessivamente, pois os peixes evitam humanos, de acordo com Giorgos Tserpes, diretor de pesquisa do Centro Helênico.
"Não acho que haja perigo", disse ele, observando que provavelmente se tornarão parte do ecossistema da Grécia a longo prazo. "As mudanças climáticas favorecem esse tipo de peixe."
Essa também é a conclusão de Moraitis, que preside a Associação de Pesca de Milos. Mesmo quando o abate for eventualmente implementado em toda a Grécia, a potencial necessidade de redes especializadas vai torná-lo custoso e é improvável que reduza severamente a população crescente.
"O abate é um passo na direção certa, mas veio tarde", disse Moraitis. "O baiacu veio para ficar."
Fonte: Folha de S. Paulo
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