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Caverna no Paraná revela influência da Antártida e do El Niño em chuvas extremas no Sul do Brasil

30/06/2026

Uma caverna no interior do Paraná guarda um "arquivo climático" que permitiu a pesquisadores brasileiros reconstruir a história das chuvas extremas na região Sul do Brasil nos últimos 7.500 anos. O resultado mostrou que a frequência desses eventos no século 20 figura entre as mais elevadas de toda a série histórica e apontou dois fatores que influenciam esse processo: a variabilidade climática no continente antártico e a ocorrência de El Niño —ambos presentes no cenário atual.
Os cientistas descobriram que períodos de verão com temperaturas mais baixas na Antártida Ocidental tendem a coincidir com mais eventos extremos no Sul do Brasil. A hipótese é que mudanças no gradiente térmico entre altas e médias latitudes (ou seja, entre as regiões polares, que são mais frias, e as zonas temperadas e subtropicais, mais quentes) alterem a circulação atmosférica, favorecendo a formação de frentes frias e o transporte de umidade da Amazônia para a região.
Nos últimos mil anos, também se nota uma relação significativa entre a frequência de chuvas extremas e episódios moderados ou fortes de El Niño —fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas do oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação dos ventos e a distribuição de calor e umidade em todo o planeta.
Os achados ganham ainda mais relevância neste ano em função da alta probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade moderada a forte nos próximos meses, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM, ligada à Organização das Nações Unidas). Os impactos serão sentidos no Brasil. O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) divulgou nota técnica com alertas para a possível ocorrência de chuvas intensas e desastres hidrogeológicos na região centro-sul do Brasil, enquanto no restante do país a preocupação é com secas.
Motivados pela necessidade de compreender casos como as enchentes que devastaram mais de 470 municípios no Rio Grande do Sul em maio de 2024 (um ano de El Niño), os cientistas analisaram espeleotemas (estalagmites) da Caverna do Malfazido, localizada no município de Doutor Ulysses (região metropolitana de Curitiba). Desde 2019, eles fazem monitoramento constante das inundações no local.
Durante as cheias na caverna, sedimentos finos são depositados sobre as estalagmites —formações rochosas de origem mineral que crescem a partir do chão— e ficam preservados em camadas microscópicas dentro do carbonato, que continua crescendo no local. Uma das peculiaridades em Malfazido é o rápido crescimento dos espeleotemas, o que contribui para esse tipo de estudo.
As estalagmites foram datadas por meio de métodos isotópicos (que analisam a proporção de certos elementos químicos que funcionam como um "relógio natural" para calcular a idade das amostras), resultando na identificação de 921 dessas camadas de inundação. O método foi validado ao comparar parte delas ao que foi registrado em 2023, quando enchentes atingiram o rio Turvo, onde deságuam as águas da caverna, mostrando correspondência entre os resultados geológicos e os atuais.
Assim, essas camadas funcionaram como uma espécie de "arquivo natural", permitindo estimar a frequência de eventos extremos ao longo de milênios. Os achados foram publicados em abril na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature.

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