
23/06/2026
Nesta segunda-feira (22) Argentina e Áustria entram em campo em Arlington, no Texas (EUA), pela segunda rodada do Grupo J da Copa do Mundo de 2026.
São dois países de forte tradição montanhosa — e, fora dos estádios, essa característica geográfica vem alimentando outro tipo de disputa, que tem como protagonistas os glaciares que cobrem suas cordilheiras.
🧊 ENTENDA: Glaciares, também chamados de geleiras, são enormes massas de gelo formadas ao longo de milhares de anos, a partir da neve que se acumula, endurece e se transforma em gelo compacto.
"As geleiras atuam como armazenadores de água, liberando ao longo de todo o ano, inclusive períodos de seca", explica Jefferson Cardia Simões, professor de Glaciologia e Geografia Polar da UFRGS, onde fundou o Centro Polar e Climático (CPC) da instituição.
Mesmo parecendo paradas, elas se deslocam lentamente pela força da gravidade, como se fossem rios de gelo. Por causa disso, essas formações estão entre as maiores reservas de água doce do planeta.
Contudo, hoje os dois países seguem direções praticamente opostas quando o assunto é a proteção dessas reservas de gelo.
Em 2010, a Argentina sancionou a primeira lei do mundo voltada especificamente à preservação de glaciares e do chamado ambiente periglacial — uma faixa de terreno ao redor do gelo visível que também guarda água congelada no subsolo e funciona como uma espécie de reservatório natural, importante para o abastecimento de rios em períodos de seca.
A lógica da norma era simples: protegia-se automaticamente toda essa área, por precaução, sem necessidade de provar caso a caso sua importância.
Neste ano, no entanto, o governo argentino promoveu uma reforma que muda esse princípio.
Pela nova regra, para que um glaciar ou uma área periglacial sejam protegidos, é necessário demonstrar que eles contribuem de forma significativa para o abastecimento de água de uma bacia hidrográfica.
Além disso, a decisão sobre o que será preservado deixa de seguir um critério único para todo o país e passa a depender de cada província.
"Com o aumento do derretimento das geleiras, estamos perdendo a regularidade do aporte de água a várias regiões, junto tem aumentado o número de desastres ambientais (principalmente por deslizamentos de terrenos pertos dessas geleiras)", acrescenta Simões.
A mudança tem relação direta com a mineração. A província de San Juan, que concentra a maior parte dos glaciares argentinos, é também uma das regiões mais cobiçadas para a exploração de cobre e ouro — minérios cada vez mais valorizados no mundo, inclusive por serem usados em equipamentos ligados à energia limpa, como painéis solares, turbinas eólicas e baterias.
Com a nova regra, projetos de mineração que antes enfrentavam barreiras automáticas por estarem próximos a glaciares passam a ter caminho mais livre para avançar, desde que demonstrem que o impacto sobre a água não é significativo.
A reforma dividiu opiniões dentro do próprio país. Setores ligados à mineração defendem que a regra anterior era imprecisa demais e travava investimentos importantes para economias locais.Já a Áustria caminha em direção oposta. No país, a legislação de proteção da natureza do estado do Tirol estabelece o que é descrito como uma proteção "absoluta" das geleiras: em regra, é proibida a construção de teleféricos, estradas e outras estruturas sobre o gelo ou em suas bordas imediatas.
Já cientistas, ambientalistas e parte da oposição argumentam que a mudança fragiliza a proteção justamente das áreas que funcionam como reserva de água para os Andes — numa região onde o próprio aquecimento global já vem reduzindo o volume de neve e gelo disponível.
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