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Desequilíbrio energético da Terra dobrou nas últimas décadas e alimenta extremos climáticos

23/06/2026

Ondas de calor em toda a Europa e no sul da Ásia têm dominado as notícias recentemente. Mas esses eventos são, na verdade, uma manifestação superficial de mudanças mais profundas que estão afetando nosso planeta: a própria Terra está acumulando calor mais rápido do que nunca.
Lideramos uma grande equipe internacional de cientistas que se reúne todos os anos para apresentar uma atualização sobre o estado do sistema climático terrestre. Neste ano, constatamos que o desequilíbrio energético da Terra –a diferença entre a quantidade de energia que entra e sai do planeta– dobrou nas últimas décadas e está agora em níveis recordes.
Esse calor extra é um indicador-chave do ritmo e da escala das mudanças climáticas causadas pela humanidade. Em um clima não afetado pelas emissões de gases de efeito estufa produzidas pela atividade humana, o balanço energético da Terra seria igual a zero. Mas, desde a década de 1970, a Terra tem ficado cada vez mais desequilibrada. Essa taxa de aumento é mais rápida do que a esperada, e trabalhos estão em curso para entender exatamente por que isso está acontecendo.
A maior parte desse excesso de calor não permanece na atmosfera. Cerca de 90% dele está sendo absorvido pelos oceanos, que atuam como um vasto dissipador de calor. Mas as consequências se manifestam em todo o sistema terrestre. Os oceanos estão aquecendo, as camadas de gelo dos polos e as geleiras estão derretendo, e o permafrost está descongelando.
O nível do mar também está subindo, impulsionado pela expansão térmica do oceano mais quente (um aumento físico no volume da água do mar à medida que ela absorve calor) e pelo derretimento do gelo terrestre. Desde 1901, o nível global do mar aumentou cerca de 23 centímetros. Isso pode não parecer dramático, mas mesmo aumentos relativamente pequenos no nível do mar podem tornar as tempestades mais perigosas, aumentar as inundações em áreas costeiras e causar danos a ecossistemas e infraestrutura.
A taxa de elevação do nível do mar também está se acelerando. Entre 1901 e 2018, ela subiu cerca de 1,7 mm por ano. Na última década (2006-25), essa taxa mais que dobrou, chegando a mais de 3,6 mm por ano.
Os próprios oceanos, aquecidos por toda essa energia armazenada, também estão aumentando as chances de eventos climáticos mais extremos. Ondas de calor marinhas –períodos prolongados de temperaturas oceânicas excepcionalmente altas– são agora cerca de três vezes mais frequentes do que eram no início da década de 1990. Em 2025, uma área média do oceano teria passado por cerca de 65 dias de onda de calor marinha, embora algumas regiões tenham registrado muito mais e outras muito menos.
Isso é substancialmente mais alto do que em décadas anteriores e, sem intervenção humana, esperaríamos ver apenas cerca de três a quatro dias de ondas de calor por ano. As ondas de calor nos oceanos podem devastar a vida marinha, perturbar a pesca e enfraquecer as proteções costeiras naturais das quais muitas comunidades dependem.
Os impactos do desequilíbrio energético da Terra também não ficam restritos ao mar. Oceanos mais quentes levam a uma evaporação mais intensa e a uma atmosfera mais úmida, tornando mais prováveis também extremos climáticos como ondas de calor continentais, chuvas intensas e secas.
Além das mudanças causadas pela atividade humana, o desequilíbrio energético combina-se com padrões climáticos naturais, como o El Niño —um aquecimento periódico do oceano Pacífico tropical que altera os padrões climáticos em todo o planeta. Embora os eventos do El Niño em si sejam naturais, os de hoje estão ocorrendo em um mundo que já possui uma linha de base mais quente.
Cientistas estão atualmente atentos ao desenvolvimento de um El Niño particularmente forte, impulsionado por condições oceânicas excepcionalmente quentes. Como afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, o El Niño pode "jogar lenha na fogueira de um mundo em aquecimento".

A matéria acima pode ser lida na íntegra na Folha de S. Paulo

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