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‘Ilha dos Gatos’: abandono de felinos provoca crise ambiental em Mangaratiba

02/06/2026

Uma pequena ilha localizada entre as baías de Mangaratiba e Angra dos Reis se tornou o centro de uma complexa questão ambiental e de saúde pública no litoral fluminense. Conhecida popularmente como “Ilha dos Gatos”, a Ilha Furtada abriga atualmente mais de 700 felinos abandonados, cenário que mobilizou pesquisadores, veterinários, ambientalistas e autoridades em busca de soluções para minimizar os impactos provocados pela superpopulação de animais no local.
O problema é resultado de décadas de abandono. Segundo relatos de moradores e protetores de animais, se tornou comum que pessoas deixem gatos na ilha, acreditando que ali eles encontrarão abrigo. No entanto, a área não possui condições naturais para sustentar tantos animais. Sem fontes de água doce e com escassez de alimentos, os gatos dependem quase integralmente da ajuda de voluntários e organizações de proteção animal para sobreviver.
A situação ganhou ainda mais atenção após pesquisadores identificarem a presença do parasita Toxoplasma gondii em animais da ilha. O microrganismo é responsável pela toxoplasmose, doença que pode afetar seres humanos e diversas espécies da fauna silvestre. Foi criada então uma força-tarefa formada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), Instituto Boto Cinza e Prefeitura de Mangaratiba.
O grupo é responsável pelo projeto “Uma Só Saúde na Ilha Furtada”, iniciativa que busca investigar os impactos da presença maciça dos gatos sobre o ecossistema local e propor soluções para reduzir os danos ambientais e os riscos à saúde pública.
Além da quantidade expressiva de animais, outro fator preocupa os especialistas: a ilha não oferece condições naturais para sustentar a população felina. Não existem fontes de água doce nem oferta suficiente de alimentos para os mais de 700 gatos que vivem no local. A sobrevivência dos animais depende diretamente da atuação de voluntários e organizações de proteção animal, que realizam ações periódicas de alimentação, hidratação e assistência veterinária.
Entre os principais focos da investigação está a presença do parasita Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose. Estudos realizados na ilha identificaram o microrganismo em parte da população de gatos, levantando preocupações sobre os efeitos da doença no ambiente e em outras espécies.
Os gatos são os principais hospedeiros do parasita e podem eliminá-lo por meio das fezes. Em períodos de chuva, o material contaminado pode ser levado para o solo e alcançar o ambiente marinho.
A partir daí, o parasita pode ser absorvido por organismos filtradores, como ostras e mexilhões, e atingir diferentes espécies da fauna marinha. Pesquisadores alertam que até mesmo mamíferos marinhos, como golfinhos, já foram afetados pela toxoplasmose em outras regiões costeiras. Além dos impactos sobre a biodiversidade, a contaminação pode representar riscos indiretos para pessoas que consomem frutos do mar provenientes de áreas afetadas.
Os pesquisadores ressaltam que a solução para a crise não se limita à retirada dos animais ou ao controle da reprodução. Mesmo com a redução da população de gatos, os efeitos da contaminação podem persistir por longos períodos. Isso ocorre porque os oocistos do Toxoplasma gondii apresentam grande resistência e podem permanecer viáveis no ambiente durante meses ou até anos, exigindo monitoramento constante e ações continuadas de controle.
Por essa razão, o projeto prevê não apenas medidas voltadas aos felinos, como castração, assistência veterinária e eventual recolhimento, mas também o acompanhamento da qualidade ambiental da ilha e das áreas marinhas do entorno.
Em 2024, a Ilha Furtada foi retomada pela União por interesse público após processos judiciais relacionados à inadimplência. Desde então, o município de Mangaratiba aprovou uma legislação específica para a área, estabelecendo diretrizes para o manejo populacional dos gatos e ampliando as penalidades para quem abandonar animais em ilhas da região.

Fonte: Diário do Rio

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