
16/04/2026
Há quatro gerações, as integrantes da Colônia de Pescadores Z-20, na cidade de Igarassu (a 33 km de Recife), dedicam-se à captura de marisco, sururu e siri. Porém, o conhecimento tradicional sobre a maré, os ventos e a Lua não tem sido suficiente para driblar as mudanças ambientais que afetam a rotina e a renda delas.
Em meio ao imenso banco de areia da praia do Capitão, conhecida como Mangue Seco, a bisneta de pescadores Valma Ramalho, 47, diz que a imprevisibilidade das chuvas têm interferido na reprodução do marisco.
"O marisco se reproduz o ano todo, mas nos meses de maio a agosto se reproduzem mais. Nos últimos anos as chuvas chegaram tarde e foram poucas. O marisco não cresce totalmente", relata ela, que preside a colônia de 5.000 associados —90% são mulheres.
Dados da Agência Pernambucana de Águas e Clima apontam que, em Pernambuco, de 2015 a 2025, houve grande instabilidade no volume de chuvas no intervalo de maio e agosto.
Os registros mostram uma alternância significativa entre períodos muito chuvosos e anos mais secos. Além disso, evidenciam a concentração de precipitações intensas em poucos eventos. Em Igarassu, por exemplo, maio de 2021 registrou um acumulado de 502,4 mm, porém altamente concentrado: um único dia respondeu por 42% de toda a chuva do mês.
Valma afirma que o ideal é que não fosse necessário pescar durante o período de maior reprodução. "Estamos lutando por um [seguro] defeso de maio a setembro", conta. O auxílio financeiro é pago a pescadores durante o período de reprodução dos animais, evitando o esgotamento dos estoques pesqueiros.
A oceanógrafa Fiamma Abreu, que pesquisa contaminantes orgânicos na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), afirma que estudos identificaram a influência de atividades industriais e do tráfego de embarcações na qualidade da água do rio Igarassu.
"Observamos uma mistura de fontes de contaminação, que vêm tanto da queima da cana-de-açúcar e de atividades agrícolas quanto de combustíveis fósseis, pela queima de óleo", explica.
Ela ressalta que os moluscos estão entre os organismos mais sensíveis às mudanças ambientais. "A poluição compromete o sistema imunológico e reduz suas defesas naturais. Com menos resistência, eles se tornam mais suscetíveis às mudanças climáticas, à variação do pH da água e da salinidade."
Nesse estado de estresse, diz ela, eles deixam de se reproduzir e de crescer. "Toda a energia passa a ser direcionada apenas para manter o organismo funcionando."
Edileuza Nascimento, 70, afirma que começou a pescar aos quatro anos de idade, na praia de São José da Coroa Grande, no sul de Pernambuco. São 66 anos na maré. Atualmente, vive no bairro de Brasília Teimosa, em Recife. "Tá tudo mudado."
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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