
19/03/2026
O excesso de iluminação artificial em cidades costeiras durante a noite pode ter um efeito na fisiologia de tubarões que vivem nessas áreas.
De acordo com um estudo feito em Miami, na Flórida (EUA), com duas espécies de tubarão, os níveis de melatonina —o chamado hormônio do sono, importante para regular os ciclos circadianos em vertebrados— tiveram reduções em ambientes com luzes artificiais à noite.
O efeito foi observado no tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum), uma espécie que costuma permanecer em locais próximos à costa. Já em indivíduos da espécie de tubarão-galha-preta (Carcharhinus limbatus), esse mesmo efeito não foi observado.
Os resultados foram publicados no último mês na revista Stoten (Science of the Total Environment). O estudo foi liderado pela bióloga marinha Abigail Tinari, da Universidade de Miami, em colaboração com a Universidade de Carleton (Canadá) e da organização de pesquisa marinha Beneath the Waves.
A pesquisa é a primeira a medir concentrações desse hormônio nesses animais na natureza. Os cientistas analisaram amostras de sangue de 27 indivíduos jovens de tubarão-lixa e 42 adultos de galha-preta capturados durante a noite na baía de Biscayne, na Flórida. Destes, 12 tubarões-lixa e 25 galhas-preta eram de áreas com altas concentrações de luzes artificiais; enquanto 15 tubarões-lixa e 17 tubarões-galha-preta eram de áreas com baixa concentração de luzes artificiais no período da noite.
Os tubarões-lixa, indivíduos encontrados em regiões com maior intensidade de luz artificial, apresentaram níveis significativamente menores de melatonina em comparação com aqueles de áreas mais escuras.
Já nos tubarões-galha-preta não houve diferença significativa entre os locais com mais ou menos iluminação. Para os autores, por serem de uma espécie com maior mobilidade, os C. limbatus podem passar menos tempo expostos à poluição luminosa e, assim, não sofrem os efeitos dela em sua produção hormonal.
A pesquisa não elucida se níveis menores de melatonina têm algum efeito prejudicial na biologia dos animais. Tampouco foi possível conduzir experimentos sobre impacto nas atividades dos bichos, como alimentação, reprodução e fuga.
No entanto, estudos com outros peixes indicam que mudanças no padrão de melatonina podem afetar comportamento, metabolismo e reprodução. Como os tubarões são predadores de topo de cadeia, é provável que alterações em sua fisiologia possam ter um efeito ainda sobre todo o ecossistema marinho.
O estudo traz algumas limitações, como o fato de não ter sido possível controlar a análise para idade, estresse da captura ou ainda diferenças ambientais que poderiam influenciar os níveis hormonais. Além disso, não é conhecido ainda o ciclo natural de produção de melatonina em C. limbatus e G. cirratum.
Vale ressaltar, ainda assim, que espécies como o tubarão-lixa, que vivem próximos a áreas costeiras, podem ser particularmente vulneráveis a alterações do habitat provocadas por ação humana, como o excesso de luzes e também de sons em praias.
"Essas descobertas sugerem que a exposição à luz artificial durante a noite pode suprimir os níveis de melatonina em tubarões selvagens, mas a vulnerabilidade depende do comportamento", disse Tinari. "Espécies que são altamente residentes em áreas com poluição luminosa parecem mais suscetíveis do que espécies que se movimentam regularmente entre habitats iluminados e mais escuros."
Fonte: Folha de S. Paulo
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