
22/01/2026
No Pantanal Norte, no estado do Mato Grosso, campos alagados dividem espaço com faixas de mata e pastagens abertas. Ali, uma cena pouco usual começou a ser registrada por câmeras instaladas perto de currais das fazendas de criação de gado, atividade primordial na região. Em vez da figura solitária de uma onça-pintada, que tradicionalmente percorre seu território sozinha, as imagens mostraram quatro onças passando em frente às câmeras em sequência. Elas paravam, cheiravam o ambiente e observavam umas às outras. Tudo isso acontecendo em um intervalo de pouco mais de dois minutos.
Para quem estuda a espécie, também chamada de jaguar, em vida livre, essa aproximação é muito rara e chama atenção. O registro em vídeo faz parte de um estudo que analisou em detalhes essas interações e foi recentemente publicado na revista científica Biota Neotropica.
As filmagens foram realizadas em currais cercados por fios eletrificados, parte de um sistema de manejo criado por nosso grupo de pesquisa e já adotado na pousada Piuval e em outras áreas do pantanal para evitar ataques ao gado. Em estudos anteriores, havíamos demonstrado que a eletrificação diminuiu de modo importante os ataques ao gado, mas não tínhamos ainda dados para entender como as onças percebiam a barreira. O novo registro ajuda a responder essa pergunta.
A paisagem ao redor ajuda a entender o contexto. A pousada Piuval está numa região do pantanal onde a pecuária ocupa grande parte do território, e onde também há pressão de garimpo e expansão urbana. Mesmo assim, ali já foram identificadas por câmeras ao menos 31 onças nos últimos três anos. O monitoramento contínuo permite registrar comportamentos que, de outro modo, passariam despercebidos. O arranjo familiar observado —fêmea adulta, seus subadultos e um jovem macho (sem ser filho dela)— mostra um tipo de tolerância social raro na espécie, que normalmente circula de forma independente.
As câmeras mostram uma onça jovem se aproximando da cerca, recebendo o choque e recuando. Logo depois, duas onças subadultas (equivalente à adolescência) chegam, observam a reação do primeiro animal e se mantêm à distância. A fêmea adulta, mãe das duas onças, acompanha o grupo e aparece por último, cheira o local e também evita o contato. A cena sugere que a experiência de um indivíduo passou a orientar o comportamento dos demais.
A composição do grupo chama a atenção por si só. As câmeras registraram uma fêmea adulta, dois filhotes subadultos e um terceiro jovem macho, aparentado, mas não filho. Coalizões de onças são descritas quase sempre entre machos adultos. Aqui, trata-se de um arranjo familiar mais complexo, possível porque há parentesco para reduzir tensões.
Pudemos observar que o macho subadulto, mesmo não sendo prole direta desta fêmea específica, foi aceito por ela no grupo. Essa aceitação demonstra uma tolerância passiva incomum por parte da fêmea adulta, que transcende o cuidado com seus próprios filhotes, sugerindo que o parentesco genético ou mesmo um instinto maternal ampliado facilitou a integração do indivíduo no núcleo social.
Uma das sequências de imagens mostra detalhes importantes. Primeiro, o animal jovem curioso se aproxima da cerca e recebe o choque. O segundo animal aparece logo depois e vocaliza um sibilo em direção ao primeiro, um gesto que pode indicar alerta. Em seguida vem a terceira onça, que observa a área, cheira a estrutura e recua. Por fim, a mãe, conhecida como Baia, se aproxima e repete o comportamento cauteloso. O ritmo contínuo da cena indica que os quatro estavam circulando juntos naquela noite.
Leia a reportagem na íntegra clicando na Folha de S. Paulo
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