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Este calor talvez não seja o novo normal, e isso não é boa notícia, diz especialista

21/11/2023

Entre o desalento de quem passou décadas alertando sobre o aquecimento global e a vocação de divulgador científico, Alexandre Araújo Costa, 53, procura explicar como se formam ondas de calor como a dos últimos dias e por que elas se tornaram mais frequentes.
Doutor em ciências atmosféricas pela Universidade Estadual do Colorado (EUA) e professor titular da Universidade Estadual do Ceará, ele não arrisca dizer se este foi o último calorão do ano nem afirma que vislumbramos um "novo normal" do clima.
"Talvez não seja adequado falar em novo normal –e isso não é boa notícia. Nós estamos com um clima fora do equilíbrio, em processo de mudança, e ainda não sabemos onde vai parar."
O que se sabe, contudo, não é nada animador, sobretudo quando se conhecem as projeções para as diferentes regiões do Brasil: "Não dá para esperar coisa boa em nenhuma, isso eu posso dizer".

Como se formam ondas de calor como a atual?

Pela formação de bolsões de alta pressão. Basicamente, existe uma massa de ar com um movimento descendente –como se alguém estivesse soprando o chão. Como essa massa de ar vem de cima, ela tende a ser seca. Isso reduz a nebulosidade e facilita o aumento da insolação, ou seja, a radiação solar fica mais intensa. Então o nível de aquecimento fica muito forte.
Além disso, essa massa de ar, por ser de alta pressão, funciona como uma barreira para a entrada de outras massas de ar [frentes frias, por exemplo]. A tendência, portanto, é que esses sistemas perdurem por vários dias.

O bolsão de alta pressão com essa intensidade é um fenômeno normal?

Nessa intensidade, poderia acontecer, mas com um tempo de recorrência de várias décadas, algo muito raro [uma vez a cada 50 anos]. Mas, por causa do aquecimento global, esses eventos estão muito mais comuns.
Às vezes as pessoas têm um pouco de dificuldade de entender isso. Elas pensam: "O aquecimento global é só 1,5°C, enquanto na minha cidade a temperatura varia 15°C em um só dia". Mas 1°C que você mova na média faz uma diferença enorme na ocorrência dos extremos, porque muda a cauda da distribuição estatística dos eventos.
O problema é que os ecossistemas são adaptados para certa alternância de temperatura, alta pressão, chuvas etc. Com o aquecimento global, a gente começa a ter eventos que estão fora dos limites de adaptação.

Quando faz muito frio no Brasil, algumas pessoas questionam o aquecimento global, e especialistas como o sr. explicam que uma coisa não tem a ver com a outra. Agora que está fazendo muito calor, especialistas como o sr. dizem que tem relação com o aquecimento global. Por que o frio não nega o fenômeno e o calor o confirma?

Pela estatística. Os eventos de frio extremo estão menos frequentes –não é que desapareceram. Em contrapartida, os eventos de calor extremo estão muito mais frequentes. Praticamente cinco vezes mais frequentes.
É essa assimetria que nos leva a cravar a causa. Se fosse um sistema de probabilidades distribuídas equitativamente, para cada recorde de calor teríamos um recorde de frio.

Já dá para falar que esse é o novo normal de calor?

Talvez não seja adequado falar em novo normal –e isso não é boa notícia. Nós estamos com um clima fora do equilíbrio, em processo de mudança, e ainda não sabemos onde vai parar.
Mas a gente tem uma ideia. Se a gente chegar a um mundo 4°C mais quente, que seria a situação de pior cenário [dos modelos], esses eventos de calor de tempo de recorrência de 50 anos no período pré-industrial ficariam 39 vezes mais frequentes. Ou seja, aconteceriam quase todo ano. E se esse for o novo "normal", como vai ser o novo extremo?
Você pode imaginar que, num mundo 4°C mais quente, vários pontos do Brasil chegariam a 50°C. Nenhum dos nossos biomas resiste a isso. Nem a caatinga. Olha, está feio. É duro, porque a gente avisou tanto. Faz 20 anos que não faço outra coisa.

Termine de ler esta entrevista clicando na Folha de S. Paulo

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