
01/08/2023
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) declarou o início do primeiro evento El Niño dos últimos sete anos. A OMM estima em 90% a probabilidade de ocorrência, ao longo de 2023, do fenômeno climático que envolve o aquecimento incomum do Oceano Pacífico, com potência moderada.
O fenômeno El Niño traz clima mais quente e seco para lugares como o Brasil, a Austrália e a Indonésia, aumentando o risco de incêndios florestais e secas. Já em outros países, como o Peru e o Equador, ele aumenta as chuvas, gerando enchentes.
Os efeitos são descritos, às vezes, como uma prévia do “novo normal” frente às mudanças climáticas geradas pela atividade humana. E suas consequências sobre a produção agrícola — e, portanto, sobre o preço dos alimentos, em especial dos grãos básicos, como trigo, milho e arroz — são particularmente preocupantes.
Os impactos globais do El Niño são complexos e diversificados. Potencialmente, ele pode influenciar a vida da maioria da população mundial, especialmente as famílias pobres e da zona rural, cujo destino é intrinsecamente relacionado ao clima e à agricultura.
É improvável que o abastecimento global e os preços da maioria dos alimentos acompanhem tantas oscilações. As evidências das dez ocorrências do El Niño nas últimas cinco décadas indicam impactos relativamente modestos e, até certo ponto, ambíguos sobre os preços globais.
Esses eventos, embora tenham reduzido a produção agrícola média, não resultaram na “tempestade perfeita” em escala que induziria “choques na produção dos cereais básicos”.
Mas os efeitos locais podem ser sérios. Até um El Niño “moderado” pode afetar significativamente produtos restritos a áreas geográficas específicas, como o óleo de palma, que provém principalmente da Indonésia e da Malásia.
Em algumas regiões, a disponibilidade e a acessibilidade dos alimentos induzidas pelo fenômeno El Niño podem gerar consequências sociais sérias, como conflitos e fome.
O gráfico a seguir exibe a correlação entre os eventos El Niño e os preços globais dos alimentos, medidos de acordo com o Índice de Preços de Alimentos das Nações Unidas.
índice acompanha as alterações mensais dos preços internacionais de uma cesta de alimentos básicos.
Ele demonstra um padrão inflacionário geral dos alimentos, mas raramente existem grandes oscilações nos anos de ocorrência do fenômeno El Niño. Pelo contrário, o índice mostra redução de preços nos dois episódios mais fortes do El Niño das últimas três décadas.
Outros fatores causados pelos seres humanos influenciaram os preços, principalmente a crise financeira na Ásia em 1997 e a crise financeira global de 2007-2008. E, em 2015, os preços dos alimentos caíram devido à redução da demanda e à oferta maior do que a esperada, já que a ocorrência do El Niño acabou não sendo tão forte quanto se temia.
Tudo isso sugere que o El Niño, normalmente, não desempenha papel preponderante nas flutuações dos preços globais das commodities.
Por que isso acontece? Porque o El Niño, de fato, causa redução da produção agrícola, mas, no caso de alimentos que são cultivados em todo o mundo, essas perdas costumam ser compensadas pelo aumento da produção em outras regiões importantes.
O fenômeno pode trazer, por exemplo, condições climáticas favoráveis para o Chifre da África (Djibuti, Etiópia, Eritreia e Somália), uma região assolada por conflitos e suscetível à fome.
O trigo é um bom exemplo de produto. O El Niño vem afetando a produção de trigo na Austrália desde 1980.
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