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O Grand Canyon, uma catedral do tempo, está perdendo seu rio

15/06/2023

Lá embaixo, sob as pousadas para turistas e as lojas que vendem chaveiros e incenso, passando por riachos intermitentes varridos pelos ventos e vales marrons pontilhados de agave, juníperos e artemísia, as rochas do Grand Canyon parecem atemporais. As mais antigas datam de 1,8 bilhão de anos atrás — não apenas eternidades antes de os humanos primeiro colocarem os olhos nelas, mas eternidades antes de a evolução ter dotado qualquer organismo deste planeta de olhos.
Passe tempo suficiente no cânion e você mesmo pode começar a sentir-se um pouco desligado do tempo. Os paredões imensos formam uma espécie de casulo que protege você do mundo moderno, com seu sinal de celular, sua poluição luminosa e suas decepções. Eles atraem seu olhar sempre para o alto, como em uma catedral.
Você talvez pense que está enxergando até o topo do cânion. Mas mais acima e além há mais paredões, e acima deles ainda mais, fora das vistas exceto por um vislumbre ocasional. Isso porque o cânion não é apenas profundo. É largo também: 29 quilômetros de um lado a outro, em seu ponto mais largo. Não é uma mera catedral de pedra. É um verdadeiro reino: enorme, autocontido, uma realidade alternativa que existe majestosamente fora da nossa.
Porém o Grand Canyon continua atrelado ao presente em um ponto chave. O rio Colorado, cuja energia selvagem entalhou o cânion ao longo de milhões de anos, está em crise.
À medida que o planeta se aquece, há menos neve, e a falta de neve está privando de água as nascentes do rio, nas Montanhas Rochosas, ao mesmo tempo em que a temperatura mais alta rouba mais água por meio da evaporação. Os sete estados servidos pelo rio estão usando cada gota de água que ele consegue fornecer, e, embora um inverno úmido e um acordo recente entre os estados tenham afastado o colapso do rio por enquanto, sua saúde no longo prazo permanece em dúvida profunda.
O Colorado flui tão abaixo das bordas do Grand Canyon que muitas entre os 4 milhões de pessoas que visitam o parque nacional todo ano o enxergam apenas como um fiapo, brilhando ao longe. Mas o destino do rio tem importância profunda para o cânion, de 450 km de extensão, e o modo como gerações futuras vão conhecê-lo. Nossa subjugação do rio Colorado já deslanchou mudanças amplas nos ecossistemas e paisagens do cânion. São mudanças que um grupo de cientistas e pós-graduandos da Universidade da Califórnia em Davis se propuseram a ver em primeira mão, viajando em botes infláveis: uma viagem lenta através do tempo profundo, em um momento em que o relógio da Terra parece estar acelerando.
John Weisheit, um dos líderes da entidade conservacionista Living Rivers, vem percorrendo o Colorado de balsa há quatro décadas. Ele disse que ver quanto o cânion mudou durante sua vida o deixa "tremendamente deprimido. Sabe como você se sente quando vai ao cemitério? É como eu me sinto."
Mesmo assim, ele continua a ir ao cânion, mais ou menos a cada ano. "Porque a gente precisa rever um velho amigo."

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