
06/06/2023
Jaime Lucian dos Santos Filho cresceu em uma palafita às margens do rio Araguari, no povoado de Bom Amigo, no Amapá. Sua família, assim como dezenas de outras da região, costumava comer peixes do rio, criava búfalos em suas margens e regava a horta com água do Araguari. Para ir ao mercado, bastava subir o rio de bote.
Na época das cheias, o Araguari, normalmente um lençol d´água de 4 km de largura, transformava-se em uma poderosa corrente. No ent anto, no início dos anos 2000, tudo começou a mudar.
Foi quando Santos percebeu a diminuição da velocidade das águas. Blocos de areia começaram a se formar e a crescer gradualmente.
Por volta de 2013, o Araguari —até sua foz no Atlântico, a 20 km de distância— já estava cheio de lodo e não passava mais pelo vilarejo de Bom Amigo.
Santos diz que foi uma faca de dois gumes. "Tem mais terra para plantarmos. Mas a água está mais escassa."
Alguns quilômetros do antigo leito do Araguari ainda ficam alagados durante os meses de chuva, mas logo secam e se tornam duros como pedra. Bom Amigo foi perdendo o sentido, e moradores passaram a se mudar.
Mais ou menos na mesma época, os ribeirinhos de outra localidade, chamada Junco, a 15 km ao sul, também foram impactados pela transformação de um rio. Lá, no entanto, o cenário foi de inundação.
Em 2012, Domingo Maciel da Costa conseguiu um emprego como guarda de uma fazenda de búfalos a leste de Junco, na margem norte do rio Amazonas. Como um pequeno canal, o rio Urucurituba atravessava a terra e desaguava no Amazonas.
Costa diz que antes da década de 90, o Urucurituba tinha a largura de um quarteirão e percorria apenas alguns quilômetros de sua nascente, na floresta, até a foz.
Então, começou a crescer. Enquanto trabalhava na fazenda, o rio atingiu dez vezes a largura do rio Tietê, em São Paulo, e chegou a 15 km de extensão. Em poucos dias, o rio tragava mais de dois metros de suas margens, ele lembra.
"Em pouco tempo, virou esse monstro que você está vendo." Flutuando com o barco em cima do antigo rancho onde morava, a quase 1 km da margem atual do rio, ele exclama: "Aqui ficava nossa casa, nosso pasto, nossa terra." Mas de onde veio esse monstro?
Cientistas que estudam o rio Araguari e o Urucurituba concluíram que o assoreamento do primeiro e a contínua expansão do segundo são duas faces da mesma moeda: consequências de uma hidrelétrica construída no Araguari e da introdução da criação de búfalos na região.
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