
25/04/2023
"Eu fiquei espantada como psiquiatra", diz Debora Tseng Chou. "Os entrevistados citam pânico, dificuldade para dormir e a sensação de que estamos atrasados para resolver um problema urgente."
São crianças e adolescentes brasileiros que relataram à pesquisadora suas preocupações com as mudanças climáticas — que se desenha como a maior crise desta e das próximas décadas.
"A gente não espera deles pessimismo em relação ao futuro. Principalmente numa fase em que a vida é encarada com a perspectiva de que pode ser melhor", diz ela.
Chou e seu colega de pesquisa Emilio Abelama Neto ouviram 50 jovens entre 6 e 18 anos nas cidades de São Paulo, Itaparica (BA) e Salvador como parte de um estudo internacional liderado por Laelia Benoit, da Universidade de Yale, nos EUA, sobre emoções relacionadas ao estado do planeta.
Parte desses sentimentos se enquadra no que vem sendo chamado de "ecoansiedade": uma palavra que, em inglês, já foi incorporada pelo dicionário de Oxford e é definida pela Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês) como "medo crônico da catástrofe ambiental".
"A expressão ´ecoansiedade´ começa a aparecer na literatura, ainda em livros de ecopsicologia, na década de 1990. Mas só agora a gente está vendo esse tema ganhar projeção", diz Marco Aurélio Biblio.
Ele é presidente da Sociedade Internacional de Ecopsicologia, um campo nascido formalmente em 1989 nos EUA e que considera o cuidado com o meio ambiente como condição fundamental para o equilíbrio psíquico de um indivíduo.
É importante dizer que ecoansiedade "não é uma patologia, não é uma doença mental", como explica a psicoterapeuta britânica Caroline Hickman, uma das maiores especialistas no tema.
"A ansiedade tradicional gerada, por exemplo, pelo medo de andar de avião é algo mais particular de um indivíduo. E a raiz do problema pode ser difícil de identificar", diz ela à BBC News Brasil.
A angústia ligada à crise climática, por sua vez, possui uma causa bem definida e é caracterizada por um sentimento coletivo, afirma a psicoterapeuta.
"A sensação de impotência e frustração surge com a ação insuficiente dos poderes e a falta de consciência em outros setores da população."
Do ponto de vista do profissional, Biblio defende que o tratamento para esse tipo de transtorno não deve ser o mesmo da ansiedade tradicional.
"A ecoansiedade tem que ser acolhida como uma possibilidade real e para todos. Então é mais inteligente numa situação dessas que o apoio terapêutico seja dado, junto à medicação quando necessário, confirmando o valor da fantasia psíquica do paciente, considerando como um dado real", diz ele.
"É importante também que a pessoa que está sofrendo assuma o seu lugar dentro desse momento de grave crise. O profissional dá a confirmação do que o paciente está sentindo e o ajuda a encontrar uma maneira de se posicionar no mundo de maneira a aliviar o risco que a pessoa sente".
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