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Mar de lama: poluição afeta paisagem e futuro da Baía de Sepetiba

21/03/2023

Aos 10 anos, quando começou a acompanhar o pai e o avô nas idas ao mar, Pedro Jorge Neves lembra que os três voltavam com pelo menos duas caixas carregadas de peixes no barco. Aos 50, ele vive um cotidiano cada vez mais difícil para a pesca artesanal, prática que tenta resistir em meio ao lodo tóxico que toma a Baía de Sepetiba, na Zona Oeste do Rio.
— Hoje em dia, se for meia caixa é muito. É muita lama — lamenta.
Pedro e outros pescadores que dependem da baía para viver enfrentam todos os dias um mar de lama densa até chegar à água no trecho de Pedra de Guaratiba. São 200 metros empurrando o caíco, um tipo de bote, por cerca de dez minutos, até escapar do assoreamento e conseguir remar.
— Uma vez eu fiquei entalado no meio da baía de madrugada. Não dava para descer e empurrar porque a lama cobre a gente, é muito funda. Tive que esperar umas três horas — conta ele.
O alto nível de poluição na região não é de hoje. Nos últimos 20 anos, as praias de Sepetiba, Recôncavo, Cardo e Pedra de Guaratiba vêm registrando qualidade péssima, o pior índice de balneabilidade medido pelo Instituto Estadual do Ambiente do Rio (Inea). Nada que tenha feito as autoridades a, no mínimo, desenvolver um projeto para sanear a região.
É no bairro de Pedra de Guaratiba que deságua o Rio Piraquê, que carrega para o mar o esgoto não tratado da região. De 2012 a 2022, esse curso de água registrou o pior Índice de Qualidade da Água (IQA) entre os rios que compõem a Região Hidrográfica II do Guandu, onde está localizada a Baía de Sepetiba.
Segundo o biólogo e ambientalista Mário Moscatelli, o despejo de indústrias do entorno e a falta de saneamento básico são os grandes responsáveis pela degradação da baía, que abrange os bairros de Santa Cruz, Guaratiba, Barra de Guaratiba, Pedra da Guaratiba e Sepetiba, além dos municípios de Mangaratiba e Itaguaí, as ilhas de Itacuruçá, Jaguanum e a Restinga de Marambaia:
— Até a década de 1970, o Rio Piraquê ainda era preservado, hoje é esgoto puro. Quem vive na região lembra com nostalgia. De 1950 até 1990, houve uma série de atividades industriais e portuárias que impactaram de forma intensa todo o ecossistema da Baía de Sepetiba. A dragagem para a criação do Porto de Itaguaí, por exemplo, foi uma das atividades que mais prejudicaram essa região.
Cenário da novela “O Bem Amado”, exibida pela TV Globo em 1973, a Praia de Sepetiba, com suas águas cristalinas, atraía turistas do Rio e de fora do estado. Na década de 1960, a rainha do rádio Emilinha Borba, “cria” da região, costumava tomar banho de lama — à qual ainda eram atribuídas propriedades medicinais. Antes, a praia foi uma das localidades preferidas pela família real portuguesa para passar o verão na cidade no início do século XIX.
A realidade atual representa uma perda de oportunidades econômicas como o ecoturismo, segundo Alexandre Anderson de Souza, presidente da Associação dos Homens e das Mulheres Amigos do Mar (Ahomar).
— A Baía de Sepetiba vivia cheia e tem potencial turístico enorme e pouco aproveitado. Era muito visitada, um local de veraneio. Hoje, infelizmente, é uma baía dada para a indústria — denuncia.
Em julho de 2022, inclusive, a construção de usinas termelétricas na região teve licenciamento aprovado sem a exigência do Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA).
— A poluição industrial e o esgoto são o problema número um. As dragagens feitas na região levantaram metais pesados como cádmio e zinco, que ficaram depositados no fundo da baía — diz o deputado Carlos Minc, membro da Comissão de Meio Ambiente da Alerj.
No ano passado, 225 mil toneladas de resíduos foram retiradas de 37 rios e canais que desembocam na Baía de Sepetiba, a exemplo do Rio Piraquê. A intervenção foi feita pela Fundação Rio-Águas, da Secretaria de Infraestrutura da capital. O Inea afirma que o assoreamento é decorrente da erosão e que a região apresenta um problema histórico de ocupação desordenada. Segundo o órgão, não há previsão para intervenções no rio.
No aniversário de 115 anos da colônia de pescadores de Pedra de Guaratiba, celebrado no último dia 12, o presente foi prejuízo ambiental e econômico.
— A poluição da Baía de Sepetiba é muito séria. A gente está abandonado aqui. Os marisqueiros, que antes tiravam mais de 20 quilos do mar, hoje tiram quatro quilos, e muitos dizem que o sabor está amargo. O prédio histórico da colônia precisa de reforma e de serviços para os pescadores — afirma o presidente da colônia, Sérgio Ribeiro da Silva.
Atualmente são despejados, por dia, 25,4 milhões de litros de esgoto tratado na Baía de Sepetiba, de acordo com a Zona Oeste Mais Saneamento. A concessionária é responsável pela operação de 19 estações de tratamento de esgoto (ETEs) em 24 bairros da região. Dessas, três estão ligadas ao Rio Piraquê: Areal, Jardim Moriçaba e Vila Mangueiral.
Já a Rio + Saneamento, que assumiu a concessão em 17 cidades — incluindo Seropédica — após a privatização da Cedae, em agosto de 2022, se comprometeu a universalizar a coleta e o tratamento de esgoto em até 11 anos, cumprindo o Marco Legal de Saneamento, e a contribuir para a despoluição da baía.
Enquanto isso, a cada saída ao mar, o pescador Pedro Jorge volta com o barco cheio, mas não de peixe:
— Às vezes me dá uma tristeza muito grande. Eu jogo a rede e recolho bolsa, muita garrafa PET, latinha de cerveja, saco de gelo. Eu recolho tudo. Vou jogando dentro do barco e depois boto na caçamba de lixo. Toda vez é a mesma coisa. A minha única esperança é que tivesse uma limpeza.

Fonte: O Globo

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