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Afundar porta-aviões pode provocar morte de espécies, diz Ibama

02/02/2023

O possível afundamento do casco do porta-aviões São Paulo, que vaga pela costa brasileira desde agosto do ano passado, pode impactar seres vivos e até ecossistemas inteiros, afirma o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Segundo avaliação da equipe técnica do órgão, o plano da Marinha, revelado pela Folha, de descartar o navio de 266 metros de comprimento no fundo do mar deve liberar materiais poluentes contidos na estrutura e pode impactar "hotspots" de biodiversidade, que são fundamentais para a vida marinha.
Entre os impactos previstos estão distúrbios na capacidade filtrante e dificuldade de crescimento em organismos aquáticos e liberação de gases CFCs e HCFCs (que degradam a camada de ozônio e atuam no aquecimento do planeta). Além disso, o impacto físico sobre o fundo do mar provocaria a morte de espécies, a deterioração de ecossistemas e a carcaça poderia atrair espécies invasoras.
O instituto também estima que os microplásticos e metais pesados presentes em tintas da embarcação "poderiam se tornar protagonistas de uma bioacumulação indesejável em organismos aquáticos". A bioacumulação acontece quando substâncias se acumulam em tecidos ou órgãos de seres vivos.
O plano da Marinha seria realizar o chamado afundamento controlado por meio de uma série de explosões para abrir rasgos no casco. Isso levaria ao oceano as mais de nove toneladas de amianto presentes na embarcação. O amianto é um produto tóxico que causa doenças como câncer e asbestose, que ataca os pulmões.
O Ibama afirma que o navio não carrega uma carga tóxica. "Os materiais perigosos fazem parte indissociável de sua estrutura. Na reciclagem verde, eles seriam retirados e receberiam tratamento ambiental adequado", disse o órgão em nota.
A previsão era de que esse descarte ambientalmente correto seria feito por um estaleiro turco, mas o porta-aviões acabou sendo proibido de entrar no país após denúncias de irregularidades ambientais. Com isso, o Ibama também rescindiu a autorização de exportação e ele voltou às águas brasileiras, onde a Marinha assumiu a operação.
De acordo com o instituto, a Marinha vem informando que a deterioração do casco se agravou nos últimos meses e que não haveria condições de salvamento. Com o risco de naufrágio, o navio foi afastado para aproximadamente 300 km de distância da costa de Pernambuco, em local com profundidade de 5.000 metros.
Ainda segundo o Ibama, enquanto o órgão defendia que o porta-aviões fosse atracado em um porto brasileiro –para que fosse reparado e reexportado para passar pela reciclagem verde–, a Marinha alegava que a empresa proprietária não teria atendido às exigências necessárias para aportar com segurança.
Em um comunicado à imprensa emitido nesta terça (31), a ONG Shipbreaking Platform, que monitora a questão do desmanche consciente de navios no mundo inteiro, disse que o afundamento do navio faria com que a Marinha violasse três tratados internacionais: a Convenção de Basileia, que trata do transporte de resíduos; a Convenção de Londres, que previne a poluição marinha; e a Convenção de Estocolmo, elaborado para eliminar a produção e o uso de algumas substâncias tóxicas.

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