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Perdas nos rios voadores amazônicos podem extinguir espécies da mata atlântica

24/01/2023

Espécies nativas da mata atlântica correm risco de extinção com a redução das chuvas trazidas pelos rios voadores amazônicos, diz estudo. Secas severas diminuíram a população da rã de corredeira (Hylodes sazimai), que habita florestas de apenas quatro cidades brasileiras. Adaptações em seus corpos podem ser insuficientes para escapar da extinção em um curto prazo.
A mata atlântica tem a maior biodiversidade de anfíbios do mundo. Por outro lado, o maior declínio mundial desses animais, segundo estudo. Mudanças climáticas, doenças e fragmentação dos habitats dizimam anfíbios globalmente.
Eles são animais bioindicadores, "os primeiros a sofrer com uma mínima alteração ambiental", como explica Lucas Ferrante, autor do estudo, que integra o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).
A alta dependência da água para reprodução e respiração os torna vulneráveis às flutuações de temperatura e umidade, afirma Célio Haddad, da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Ele descobriu e batizou a rã estudada em 1995, em Campinas.
Pesquisadores usaram satélites da Nasa para rastrear o percurso dos rios voadores que levam chuvas para os habitats das rãs. Medindo 2,5 cm, elas vivem entocadas em riachos de florestas de Campinas, Poços de Caldas (MG), Caldas (MG) e Areado (MG).
A equipe observou diminuição das chuvas e umidade nos solos dessas regiões, relacionadas ao aumento das temperaturas do oceano Atlântico, causado pelo aquecimento global.
Segundo Haddad, é a primeira vez que uma pesquisa sugere a conexão entre chuvas vindas da Amazônia e espécies da mata atlântica.
Os rios voadores nascem no oceano Atlântico tropical, carregando umidade para a Amazônia. Parte dessa umidade cai em forma de chuva, outra é devolvida à atmosfera pela transpiração da floresta, em forma de vapor (8,4 trilhões de m3 por ano). É um volume 20% maior que a vazão do rio Amazonas (6,6 trilhões de m3), diz Philip Fearnside (Inpa), um dos autores da pesquisa.
Uma parte do vapor volta a se converter em chuvas, formando um ciclo hidrológico amazônico, e a outra viajará para regiões vizinhas. O poderoso e complexo ciclo hidrológico sustentado pela Amazônia regula o clima de todo continente —um mecanismo descoberto pelo agrônomo Enéas Salati, em 1979.
Os pesquisadores detectaram diminuição dos coaxos dos machos (canto para atrair fêmeas) nos períodos com menos chuvas vindas da Amazônia. Em 2014, a seca foi tão intensa que nenhum animal foi ouvido pela equipe. Não houve reprodução naquele ano e sua população diminuiu nos anos seguintes, até 2016. "Ela [a espécie] está quase desaparecendo", diz Ferrante.

Termine de ler esta reportagem na Folha de S. Paulo

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