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Colisão na Ponte Rio-Niterói: Uso da Baía de Guanabara como cemitério de navios preocupa especialistas da área ambiental

17/11/2022

Na última segunda-feira, o São Luiz, embarcação que estava há seis anos atracada na Baía de Guanabara, colidiu com a Ponte Rio-Niterói, causando transtornos em ambas as cidades, além de um bloqueio completo dos dois sentidos da via por três horas. O caso do São Luiz, no entanto, não é o único. Um mapeamento feito pela Escola de Engenharia Industrial Metalúrgica da Universidade Federal Fluminense afirma que ao menos outras 58 embarcações estão abandonadas na região da Baía de Guanabara. Especialistas na área ambiental afirmam que o uso do espaço da Baía como ‘cemitério de navios’, além de inadequado, é perigoso. Além dos riscos de contato eventual com a ponte, como nessa segunda-feira, há também um risco ambiental grave.
Alexandre Anderson, presidente da Associação Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (AHOMAR), organização que reúne pescadores e ambientalistas, afirma que o risco já era apontado há anos pela associação.
— É um descaso total, poderia ter acontecido um desastre de grandes proporções. Ainda bem que não aconteceu, mas o risco ainda existe. Os pescadores da associação já vêm apontando esses abandonos há anos. Em 2013, outro navio abandonado estava basicamente no mesmo local que o São Luiz e corria esse mesmo risco. Os barcos ali correm o risco de ficar à deriva assim como aconteceu ontem — afirmou.
Outro ambientalista especializado na região, Sérgio Ricardo, cofundador do movimento Baía Livre, que atua desde a década de 1980, afirma que os barcos ancorados na Baía esperando um futuro representam risco grave ao ecossistema local, pois espalham pela água metais pesados, óleos e outras substâncias.
— Estamos alertando que é um passivo ambiental de 30 anos, um verdadeiro cemitério de navios abandonados na Baía de Guanabara. Há risco ambiental, pois boa parte das embarcações está afundada há 30 anos. Tem metal pesado, óleo pode estar vazando para a Baía e contaminando tudo, em um impacto sobre a pesca e o turismo. É uma Baía completamente assoreada — aponta o integrante do Baía Livre.
O presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental do Rio de Janeiro (ABES/Rio), Miguel Fernández, ressalta que é preciso que as autoridades repensem o tipo de operação que querem na Baía de Guanabara:
— Com a perspectiva de despoluição da Baía de Guanabara, abre um novo debate sobre qual o uso se quer para esse corpo hídrico. Não dá para usar a Baía de Guanabara como estacionamento de navio velho. É risco ambiental e para as infraestruturas existentes. A Baía é um recurso hídrico e um patrimônio, principalmente para a população da Região Metropolitana.
Entre os riscos ambientais de navios abandonados na Baía de Guanabara, Fernández citou descarga ilegal de esgoto sanitário de navio, vazamento de óleo, água de lastro de navio com micro-organismos, além do risco de colisão, como ocorreu nesta segunda feira na Ponte Rio-Niterói. O engenheiro, no entanto, destaca a importância da indústria para a região.
— Não acho que a indústria tenha que sair do estado do Rio, mas até que ponto a gente quer indústria com essa proporção na Baía de Guanabara? Temos quase cem navios ancorados. É um volume grande. Queremos que esse patrimônio seja ancoradouro de navio ou vamos pensar num turismo ecológico, outros atrativos para essa região, dando destaque para essa exploração do turismo verde? Talvez esse acidente abra oportunidade de se discutir isso — avalia Fernández.
Niterói atribui à Capitania dos Portos a responsabilidade sobre o mapeamento de barcos abandonados na Baía de Guanabara. O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) também informa que o "controle das embarcações ancoradas na Baía de Guanabara e abandonadas é atribuição da Marinha do Brasil".
Ibama, Marinha do Brasil e o atual Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não enviaram posicionamento até a publicação desta reportagem.

Fonte: O Globo

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