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Primeiro estudo das enchentes no Paquistão revela ação da mudança climática

20/09/2022

Começou a chover excepcionalmente forte no Paquistão em meados de junho, e no final de agosto as chuvas torrenciais foram declaradas emergência nacional. A parte sul do rio Indus, que atravessa o país de ponta a ponta, converteu-se em um lago imenso. Vilarejos viraram ilhas cercadas por água pútrida que se estende até o horizonte. Mais de 1.500 pessoas já morreram. A água pode levar meses para abaixar.
O dilúvio foi agravado pelo aquecimento global causado por emissões de gases estufa, disseram cientistas na quinta-feira (15) com base num campo de pesquisas rapidamente crescente que avalia a influência da mudança climática sobre eventos climáticos extremos específicos pouco após sua ocorrência, enquanto a sociedade ainda está lidando com suas consequências arrasadoras.
Com o aperfeiçoamento de suas técnicas, os climatologistas podem avaliar com especificidade e confiança crescente como mudanças induzidas pelo homem na química da Terra afetam o clima inclemente, somando mais peso e urgência às questões de como os países devem se adaptar.
As enchentes no Paquistão são os mais mortíferos numa recente sequência de extremos climáticos espantosos ocorridos no hemisfério norte: secas implacáveis no Chifre da África, México e China; inundações inesperadas na África ocidental e central, Irã e Estados Unidos, e ondas de calor escaldante na Índia, Japão, Califórnia, Reino Unido e Europa.
Cientistas vêm alertando há décadas sobre a frequência e intensidade crescente de alguns tipos de fenômenos climáticos extremos, à medida que mais gases retentores de calor são emitidos na atmosfera. Com o planeta se aquecendo, mais água evapora dos oceanos. O ar mais quente também contém mais umidade. Assim, tempestades como as que acompanham as monções do sul da Ásia podem exercer impacto maior.
Mas as chuvas das monções no Paquistão variam tremendamente de ano a ano já há muito tempo. Por esse motivo, dizem os autores do novo estudo, é difícil definir até que ponto a mudança climática agravou a estação das monções neste ano. Mesmo assim, a maioria dos modelos computadorizados dos cientistas indicaram que o aquecimento de origem humana intensificou as chuvas de alguma maneira, o que os convenceu de que esse foi um fator que contribuiu para as enchentes.
O Paquistão poderia ter sofrido chuvas desastrosamente intensas neste ano mesmo sem o aquecimento global, disse a autora principal do estudo, Friederike Otto, climatologista no Imperial College London. "Mas a situação foi agravada pela mudança climática", segundo ela. "E pequenas alterações têm efeitos grandes, especialmente nessas regiões altamente vulneráveis."
O estudo foi produzido por 26 cientistas filiados à World Weather Attribution, uma iniciativa de pesquisas especializada em estudos rápidos de eventos extremos. Cientistas da organização concluíram que o calor que escaldou a Índia e o Paquistão neste ano teve 30 vezes mais chances de ocorrer devido às emissões de gases estufa. O calor extremo de julho no Reino Unido teve pelo menos dez vezes mais chances de ocorrer, segundo descobriu o grupo, cujo próximo tema de pesquisa será a estiagem deste verão na Europa.
Os estudos de atribuição procuram vincular dois fenômenos distintos, mas relacionados: a meteorologia (condições do tempo) e o clima.
Clima é o que acontece com as condições do tempo no decorrer de longos períodos e em escala planetária. Os dados meteorológicos só começaram a ser registrados diretamente há um século, mais ou menos, em muitos lugares. Por essa razão, cientistas usam modelos computadorizados e conceitos da física e química para formular sua visão da evolução climática. Mas as condições do tempo sempre foram variáveis, mesmo sem a influência da atividade humana. Os estudos de atribuição procuram distinguir essa variabilidade natural das alterações maiores que estão sendo provocadas pelas emissões de combustíveis fósseis.
As pesquisas de atribuição "realmente nos ajudam a entender a posição da meteorologia dentro da mudança climática de longo prazo", disse Daithi A. Stone, climatologista do Instituto Nacional neozelandês de Pesquisas Hídricas e Atmosféricas.

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