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Novos ares em Pequim: o sucesso da China contra a poluição

06/09/2022

Às vezes as boas notícias são invisíveis. É o caso da poluição na China. Há poucos anos, as manhãs em Pequim começavam pelo angustiante ritual de conferir a qualidade do ar, geralmente irrespirável. Era assunto inevitável de qualquer conversa e um dos maiores motivos de angústia cotidiana. Ninguém mais fala nisso. Hoje o rótulo “arpocalipse” é só uma marca de cerveja de alto teor alcoólico servida por um dos bares mais populares de Pequim. Mas a lembrança daquele tempo não tão distante ficou como testemunho do notável sucesso do governo chinês em encarar o problema.
Segundo um estudo da Universidade de Chicago, a redução da poluição do ar na China nos últimos sete anos foi equivalente à que os Estados Unidos levaram três décadas para atingir. É uma façanha que poucos esperavam. Ambientalistas projetavam que Pequim só chegaria a níveis razoáveis de qualidade do ar perto de 2030. O que fez a diferença foi a percepção do governo chinês de que a urgência em responder ao clamor popular podia ser também um salto estratégico, ao usar a energia renovável como motor da economia. A política climática virou política industrial.
Embora seja o maior emissor de gases de efeito estufa e o país que mais usa carvão, a China é também líder mundial em quase todas as tecnologias verdes. Não é só idealismo. A ambição é tornar o país dominante nas indústrias do futuro. Num momento em que a Europa vive uma crise energética e lamenta depender do gás russo, a ideia de precisar da China para as tecnologias do futuro já provoca calafrios no Ocidente.
O esforço para transformar sua base energética tem um componente geopolítico para a China, mas também faz parte de uma campanha mais ampla de faxina geral. Não foi só a qualidade do ar que melhorou nos últimos anos. As ruas de Pequim e da maioria das grandes cidades estão impecavelmente limpas, graças a um exército de garis.
A preocupação com a higiene tornou-se uma obsessão maior com a política de Covid zero, mas antes da pandemia já era uma ordem superior. Em 2015 o presidente Xi Jinping lançou a “revolução do banheiro”, destinada a melhorar as condições sanitárias do país. Antes temidos por sua insalubridade, hoje dá para frequentar banheiros públicos sem sustos. Outras novidades do choque de limpeza mudaram a paisagem de Pequim para melhor.
A queda na poluição do ar encheu as ruas de corredores. A recuperação dos rios criou uma nova geração de nadadores urbanos. Para quem questiona a legitimidade de um sistema de partido único com restrições a liberdades individuais, a liderança comunista responde com uma leitura própria de garantias básicas, centrada em resultados concretos e benefícios coletivos. O que está por trás da revolução do banheiro é “o valor que o Partido Comunista da China dá aos direitos humanos e ao progresso social”, exalta o jornal estatal Global Times.
Latrinas limpas e céu azul são sempre uma surpresa agradável, mas a economia não pode parar. A seca recorde que assola a China afetou a operação de hidrelétricas e periga desviar o país da meta de reduzir o uso de carvão. Se isso ocorrer, será uma crise desperdiçada, diz Li Shuo, consultor em Pequim do grupo ambientalista Greenpeace. Assim como o clamor pelo “arpocalipse” levou a ações firmes contra a poluição, imagens dramáticas como a baixa do Rio Yangtzé aumentam a conscientização sobre os impactos das mudanças climáticas. Não faz sentido repetir a mesma receita que causou o problema, diz Li.

Fonte: O Globo

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