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Pistas de pouso secretas são chave na crise de mineração ilegal no Brasil

09/08/2022

A 800 metros de altitude, a pista de pouso de terra é apenas uma cicatriz em um oceano de floresta tropical que parece interminável, cercada por poços de mineração lamacentos que sangram produtos químicos tóxicos no leito do rio.
A pista é de propriedade do governo brasileiro —a única maneira de as autoridades de saúde chegarem aos indígenas na aldeia próxima. Mas garimpeiros ilegais a tomaram, usando pequenos aviões para levar equipamentos e combustível para áreas onde não existem estradas. E quando um avião que os mineradores não reconhecem se aproxima eles espalham latas de combustível ao longo da pista para impedir o pouso.
"A pista agora pertence aos mineiros", disse Junior Hekurari, uma autoridade de saúde indígena.
Os mineradores também construíram outras quatro pistas de pouso nas proximidades, todas ilegais, dando impulso a uma expansão tão rápida da mineração ilegal nas terras supostamente protegidas do povo yanomami que o crime saiu do controle e as autoridades do governo estão assustadas demais para retornar.
Este é apenas um pequeno núcleo das pistas de pouso clandestinas que empurram a mineração ilegal de ouro e estanho para os cantos mais remotos da floresta amazônica. Escavadas na paisagem densa e exuberante, elas fazem parte de vastas redes criminosas que operam praticamente sem controle devido à negligência ou ineficácia das agências reguladoras e de fiscalização no Brasil, incluindo as forças militares.
O New York Times identificou 1.269 pistas de pouso não registradas na Amazônia brasileira no ano passado, muitas das quais abastecem uma próspera indústria ilícita que cresceu sob o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.
Bolsonaro tem enfrentado constantes críticas globais por permitir que a Amazônia seja saqueada durante seu governo. Autoridades dizem que a rápida disseminação da mineração ilícita em seu mandato pode prejudicar milhões de pessoas cujos meios de subsistência dependem dos rios e acelerar a destruição da maior floresta tropical do mundo.
A Amazônia atua como uma esponja gigante, mantendo dezenas de bilhões de toneladas de dióxido de carbono fora da atmosfera. Mas tem sofrido um ataque implacável nos últimos anos –da extração de madeira a queimadas extensivas para agricultura, mineração e outras ameaças legais e ilegais.
Pesquisas recentes mostram que as mudanças climáticas e o desmatamento generalizado estão levando a floresta tropical a um ponto de inflexão que poderá eliminar sua capacidade de se recuperar de tais danos. Isso poderia, em última análise, enviar para a atmosfera o equivalente a anos de emissões globais e dificultar o combate ao aquecimento global.
Desde que assumiu o cargo, em 2019, Bolsonaro defendeu indústrias que promovem a destruição da floresta tropical, levando a níveis recordes de desmatamento. Ele afrouxou as regulamentações para expandir a extração de madeira e a mineração na Amazônia e reduziu as proteções. Ele também cortou verbas federais e funcionários, enfraquecendo os órgãos de manutenção das leis indígenas e ambientais.
Bolsonaro há muito apoia a legalização da mineração em terras indígenas. Ele chegou a visitar uma mina de ouro num território que deveria ser protegido, sinalizando publicamente seu apoio a atividades ilícitas na Amazônia brasileira.
"Não é justo criminalizar os garimpeiros", disse Bolsonaro a apoiadores diante de sua residência em Brasília, no ano passado.
Somente nas terras yanomami —cerca de 97 mil km2, aproximadamente o tamanho de Portugal—, as autoridades policiais estimam que 30 mil mineiros estejam atuando ilegalmente em território protegido por lei. No entanto, há pouca fiscalização. Nos últimos anos seus números aumentaram, causando confrontos mortais, expulsão de comunidades indígenas, rápido desmatamento e destruição de terras e rios, com níveis impressionantes de mercúrio tóxico encontrados na água hoje.

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