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Projeto de indígenas planta araucárias em Santa Catarina

19/07/2022

Reflorestar a Terra Indígena Laklãnõ Xokleng com sua árvore sagrada, a araucária, é o objetivo de um projeto criado no oeste de Santa Catarina. O trabalho, segundo os indígenas que participam da iniciativa, já resultou em 50 mil mudas.
A araucária, que está ameaçada de extinção, é sagrada para a cultura xokleng. A árvore e suas sementes, os pinhões, integram a alimentação, os rituais e até os remédios produzidos pelos indígenas, que mantêm oito aldeias espalhadas por cerca de 14 mil hectares, nos arredores do rio Itajaí-Açu, entre os municípios de Ibirama, José Boiteux, Vitor Meireles e Doutor Pedrinho, a 260 quilômetros de Florianópolis.
A população de xoklengs em Santa Catarina está estimada em 2.200 pessoas. Essa área, reivindicada para demarcação, aliás, é a base para o julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a tese do marco temporal —critério segundo o qual indígenas só poderiam requerer terras já ocupadas por eles antes da data de promulgação da Constituição de 1988.
"A araucária representa nossa vida, o ar que a gente respira, a árvore sagrada que nossos ancestrais deixaram para nós há mais de 2.000 anos", diz Isabel Gakran, que em sua aldeia ocupa o cargo de kujá, uma jovem xamã.
Ela e o marido, Carl Gakran, são os idealizadores do Instituto Zág (araucária, na língua xokleng). O mesmo nome leva o projeto de reflorestamento, que envolve áreas alternadas do Alto Vale do Itajaí.
O pinhão, principal alimento para as aldeias, é que dá origem às mudas, que também integram o ritual sagrado chamado "ãggla".
"Dançamos, cantamos e falamos com as sementes para que cresçam perfeitas e fortes", explica Isabel, lembrando que as crianças participam da preparação. "Também recebemos crianças não indígenas e grupos de escolas."
Para aumentar o número de mudas, há mutirões. "Já plantamos 50 mil mudas na Terra Indígena Laklãnõ Xokleng, mas também doamos mudas, pois queremos reflorestar a serra catarinense inteira", afirma Isabel.
O projeto Zág já foi premiado pelo Fundo de Conservação de Espécies Mohamed bin Zayed, ONG que incentiva ações contra a extinção de espécies. Por outro lado, diz Isabel, há falta de apoio dos governos e dos órgãos públicos.
"Fazemos tudo por conta própria e temos os custos da compra dos saquinhos biodegradáveis para fazer as mudas", conta. "Pagamos R$ 1 por saquinho, então precisamos fazer vaquinha e pedir ajuda."
O botânico João de Deus Medeiros, docente da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), destaca que, além da relação prática de subsistência e o culto sagrado à árvore, há o resgate cultural da etnia. "Por isso o plantio, com uma dinâmica peculiar, envolve toda comunidade e precisa de apoio externo."
As araucárias já chegaram a representar 45% de todo o território coberto por florestas em Santa Catarina. Hoje, no entanto, há apenas 2% de sua área original conservada no estado. A devastação foi intensificada no início do século 20, com a expansão do comércio.

Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo

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